segunda-feira, 26 de agosto de 2013

05 anos de des-(re)construção do Ethos

Mais de um ano sem atualizar, deixando as encrencas e histórias que poderia contar apenas no plano da projeção. 
Foi inevitável pensar em "blogcídio", mas todas as vezes desisti a tempo. É que sou meio covarde, sempre me falta pulso firme nessas coisas de término, abandono, encerramento. Mas aos trancos e barrancos o blog (sobre)vive, e nem tudo é novidade. Ainda tem
sonho sono insônia paixão distância ilusão des-ilusão álcool café água-com-açúcar cozinha música dança Nordeste família cachos negritude internet facebook literatura letras UFRN poesia conto crônica romance  literatura maldita nacional marginal amores saudade amizade risadas verbos livros silêncios carne liberdade sentimento tédio medo crises verdades ditas da boca pra fora e  mentiras sinceras 

não necessariamente nessa ordem. 
É, talvez eu esteja voltando, 
FELIZ(?) 5 ANOS!

terça-feira, 5 de junho de 2012

Prisão



Em silêncio, eu buscava discernimento sobre alguns assuntos sentimentais, plano amoroso acidentado. Ele desconfiava do que não havia passado, mas evitava a pergunta e, consequentemente, a resposta que tantas vezes me serviu de justificativa para recusar namorá-lo. Sempre era tranquilo o nosso café da manhã - mesmos gestos, perguntas e alimentos numa repetição quase que ritualística, mas hoje estava nublado. Depois de recolher a louça, eu sempre sentava em seu colo para alguma carícia matinal, abraço hospitaleiro e mãos de desejo às 7 horas da manhã. A presença constante do ontem me perturbava, coisas vividas e vistas, reencontro, era preciso forjar esquecimento.

Da janela alta da cozinha, o céu azul me desviava o sentido, não hesitei quando senti lábios quentes me tocarem o pescoço, mas meus olhos ainda corriam em direção ao que ele não podia ver. Nem saber. 


quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Rio do Fogo - Redação e Memória


Praia de Rio do Fogo/RN

Quando criança, eu dizia que queria ser escritora, tinha a resposta na ponta da língua para as professoras e para todos os outros adultos que perguntavam o que eu queria ser quando crescesse. Não falava como se fala de um sonho, de uma possibilidade muito remota ou de uma questão de sorte - era por vontade, admiração pela palavra e por todos os seus poderes que, na época, eu considerava como uma mágica, a mágica das palavras, das combinações e das incontáveis formas de se dizer algo ao mundo. Eu não sabia definir tão bem tantas expectativas, mas sentia. Não pensava em ficar rica, ganhar muito dinheiro ou fama escrevendo, o que me encantava era essa possibilidade de transmissão, quem me conhece sabe que adoro contar histórias, narrativas nas quais eu sempre acabo sendo a personagem principal, mas onde um tanto enorme da minha vida e das minhas relações sociais/profissionais e até amorosas também é evidenciado. Queria, então, ser uma mensageira, levar risos, boas-novas, lágrimas ou reflexões ao mundo, e quanto mais gente me ouvisse (lesse), mais realizada eu seria! 
E cresci convicta de que esta seria a minha profissão. Na escola, minhas redações se destacavam não só por extensão, mas principalmente pelo bom desempenho discursivo, não que fosse algum prodígio, mas a diferença entre mim e as outras crianças era só uma: a prática. Eu treinava, enchia páginas e páginas com historinhas bobas, personagens de nomes estranhos e situações cotidianas que eu gostaria que acontecessem de verdade. 
Lembro de uma vez em que a professora solicitou que falássemos sobre as nossas férias. As minhas, como sempre, haviam sido muito chatas, paradas, não tinha feito nada de excepcional e isso não me agradava. Resolvi contar minhas férias do jeito que gostaria que tivessem sido, ou melhor, do jeito que se espera que se apresentem as narrativas escolares que falam sobre esse tema. Para tanto, escalei uma figura familiar com quem jamais havíamos tido contato, mas que sempre aparecia nas recordações juvenis da minha mãe: o tio bem sucedido, que morava na capital, cidade vizinha, mas que nunca aparecia para nos visitar. Ele tinha uma casa de praia enorme na cidade de Rio do Fogo, no litoral norte do RN, espaço que minha mãe sempre citava nas recordações de sua mocidade. Estava feito, eu tinha um local e um motivo para estar nele, visita familiar, tom de aventura, praia, sol, parentes desconhecidos... Contei tudinho, alimentando a história com as referências maternais tantas vezes repetidas e ficcionalizando momentos, floreando emoções e o sentimento de novidade que certamente eu experimentaria na visita. 
Tirei nota máxima e ganhei uma anotação no canto da folha, um elogio ao meu relato, trabalhado em tantos detalhes. Fiquei felicíssima com aquilo tudo, mas guardei o texto muito bem guardado, alguns colegas até pediram para lê-lo depois que a professora comentou durante a aula daquele dia, mas eu não deixei, o instinto de autopreservação que carrego até hoje já existia. 
Algumas pessoas com as quais dividi esta passagem da minha vida hoje, 13 anos depois, comentaram com certo sarcasmo, ensaiando uma censura ao meu devaneio infantil. Não vivemos na obrigação de que a vida imite a arte, acho que não deve haver reprovação alguma ao movimento contrário, muito menos se a imitação (ou recriação) da vida estiver na arte de uma criança de 09 anos. Mas o fato é que a compreensão parece estar em falta nos dias de hoje, não se percebe além do que se vê à primeira vista e, ainda assim, se julga. 
Nisso, chego à segunda parte do meu memorial. A redação foi bem aceita na escola, elogiada e guardada por mim junto com outras tarefas e trabalhos, mas sempre há um depois. Desde pequenos, meus irmãos sempre gostaram de mexer nas minhas coisas, ler cartas e rascunhos, investigar cartões e presentes, nunca perderam tal hábito e eu espero que leiam também este, assim saberão o quanto condeno tamanha curiosidade. Quando até eu mesma já havia esquecido, descobriram a minha narrativa de férias e eis que teve início o meu inferno. Comentaram entre si, mas não ficaram satisfeitos com tão pouco: minha irmã fez questão de expor para a família o quanto eu era 'mentirosa', numa leitura alta entrecortada por risadas e deboches que não pude evitar. Me senti humilhada, censurada, mas, pior do que o choro e a raiva que me fizeram rasgar aquele papel em vários pedaços mínimos, foi ter sentido vergonha de uma coisa que até então me era motivo de muito orgulho - eu tinha descoberto, naquela atividade, que era possível reinventar o meu mundo escrevendo e que a prosa verossimilhante era o terreno por onde eu poderia seguir sem sustos. 
Passou-se um bom tempo até que eu voltasse a escrever, mas mesmo assim o fazia de forma quase secreta, escondida, a repressão foi tamanha que só depois de alguns anos percebi que não me cabia sentimento de culpa algum. Falar em censura ou qualquer outro tipo de castramento intelectual é algo bastante complexo, são inúmeros os pontos que se deve considerar, mas, no meu caso, só vejo uma coisa primordial, uma única coisa que fez com que eu me arrastasse por tantas linhas e recordações: a consciência de que os censores estão por toda a parte e, se estou historiando isso hoje, é porque venho superando todos eles.



*

terça-feira, 17 de maio de 2011

Não-escrever

Palpitava na ponta dos dedos, como diria o Téo, mas as palavras vinham se atando umas às outras de uma forma que me deixava impotente, não conseguia ir além do ensaio mental. 

Minha mãe deve estar pensando que estou ficando louca. Quando me vê andando pela casa tão cedo, entende logo que não dormi, nem precisa bater à porta do meu quarto e constatar as olheiras que denunciam tamanha inquietude de espírito.  
O que acontece? Não sei. Fora o fato de eu não conseguir escrever nada que julgue aproveitável há meses, a vida segue normalmente em sua sucessão de equívocos. Talvez a imposição de ter que acordar cedo. Ou a tensão flagrante dos últimos e adoentados dias. Faço café para conseguir pensar melhor, minha cabeça pesa tanto com coisas aparentemente aleatórias que tenho medo de não conseguir suportar, organizar, tenho medo de perdê-las - medo de me perder.  

Deixo o copo de café na frente da tela branca do bloco de notas - suspiro - respiro como se o ar fosse me faltar no próximo minuto. Preciso escrever nem que seja para voltar o cursor a apagar tudo logo que chegar na última linha. E nem comecei direito ainda. Lembro da Adélia (Prado) dizendo  que às vezes acredita em parto sem dor, eu não acredito, não nestes casos.  

A fumaça do café quente começa a diminuir - uma bela armadilha - invisto num gole só e sinto o líquido quente agredir minha língua, impíedoso:  apesar de terem cessado os sinais, a quentura continua ali. Por quanto tempo mais eu não sei, mas sobrevive, mesmo sem dar mostras disso a quem só observa (e espera) o seu amainar.  

Sobre o não-escrever, só posso dizer que é algo que me incomoda, afetação visível. Como tentei definir outro dia numa alegoria torta, a sensação é a mesma de quando, em sonhos, me vejo em apuros e sei que preciso gritar: abro a boca, forço uma vocalização, mas me descubro sem voz. Parece um pesadelo. Ainda bem que não demoro a acordar. 


***

segunda-feira, 14 de março de 2011

Belicismo*


Concreto mesmo é o comBATE
certo mesmo é o movimento


  << tundum

tundum  

     tundum >>
 

que teima em se fazer real 
seja por tela, papel ou sussurro. 




*Poema-comentário ao "Poeminha.." da Regina Medeiros do blog "MotornaBarriga". 

quarta-feira, 9 de março de 2011

Banho-espelho, dia da mulher

Consegui abrir a porta de casa com muito esforço, mesmo gostando de estar sozinha, me chateava ver que não havia ninguém que me ajudasse com as sacolas de compras, foi muito difícil coordenar as ações, sou a pessoa mais desajeitada que já conheci. Levei tudo para a cozinha, separei tudo rapidamente, seguindo as instruções que minha mãe sempre dá nessas horas, depois de tanta repetição, seria impossível não ter ressoando mentalmente que "tudo tem seu lugar". Tudo tem seu lugar e certamente o da bolsa não é em cima do sofá, pensei. Voltei até a sala, peguei-a e fui deixar no quarto. 

Faz muito calor na minha terra, por esses meses, nem a chuva tem diminuído o desconforto térmico diário, nas ruas, as pessoas andam cada vez mais peladas, as vendas de óculos, água mineral e sorvetes aumentam, assim como acontece com qualquer outra coisa que prometa amenizar a quentura. Cheguei da rua fervendo, os cabelos soltos grudando na nuca, na pele, sensação desagradável, enquanto o espelho do guarda-roupas mostrava que meus braços, meu rosto e meu colo estão notadamente queimados. Sem paciência para arrumar as gavetas, acabei tirando o que procurava (lingerie) e fechando-as sem qualquer tentativa de organização, nem o vento que entrava pela grande janela naquele fim de tarde era capaz de conter o suor que queria escorrer pela minha testa e que me deixava mais inquieta do que a ausência dele. Lembrei que comentou algo sobre ir ao bar, não sei se demora, nem a volta me era dada como uma certeza, recordando da história do homem que diz que vai comprar cigarros que ele tanto cita, ri sozinha.

Gosto de me despir no quarto antes de partir para o banho, estando sozinha posso fazer isso.  Alcancei uma toalha, deixei uma música tocando no quarto, volume razoavelmente alto, e entrei no banheiro. A água já não chega tão fria ao chuveiro, aguardei alguns instantes, adiando o refresco mais desejado que tudo e, depois do primeiro contato, depois de deixar a água escorrer pelo meu corpo sem paradeiro, cruzei os braços num abraço a mim  mesma e me deixei ficar lá por um pouco tempo que pareceu muito. Curtia a aventura de me ensaboar, havia no toque um cuidado que é só meu, havia a surpresa das formas femininas que mostram para mim e para o mundo que há aqui uma mulher, convivendo lado-a-lado com a menina que provavelmente nunca deixarei de ser. Ao cabelo, vaidade adquirida nos últimos anos, dediquei também boa parcela de atenção, depois do ritual de xampu e condicionador, sempre conferia o quanto ele cresceu: esticava o corpo embaixo do chuveiro para sentí-lo se estendendo ao longo das costas.

O espelho no armário do banheiro, que não me incomoda mais como na adolescência, foi o próximo passo, encarei um rosto familiar e cabelos que caíam sobre o busto irregularmente. Sorri para mim mesma como se tivesse à frente uma velha conhecida, agora liberta do calor, mas não das expectativas. 

Toda olhos e sorriso, olhos cheios. - disse-me certa vez um jovem poeta. 
Cheios de quê? - perguntei, mas o maluco se resumiu a dizer que essa resposta só cabia a mim. 

Demorei alguns anos para aceitar que ele tinha razão, os olhos são conhecidos por revelarem muito da gente, no meu caso, quis a vida ser mais cruel, eles entregam, denunciam. Sou uma composição estranha nesses dias em que dissimular parece ser a palavra de ordem, não aprendi a ter meios-termos com aquilo que gosto ou desgosto, esconder o que sinto já foi algo que busquei, fadada ao insucesso. Além de tudo, falo demais, pergunto, questiono, opino e tenho um senso de proteção que beira o exagero. Consciência da minha força e dos meus limites e exageros eu tenho, agora só falta achar a tal resposta.

Cheios de quê? - repeti, retornando à superfície do espelho. 

Me sequei rapidamente, apreciando a toalha macia, envolvi-a no corpo, alvíssima. Passei um pente nos cabelos desalinhados e um perfume não tão forte, estava pronta para encontrar o velho safado na cama, enquanto o meu Bukowski não vem.

domingo, 16 de janeiro de 2011

Fogo, consequências e alguma adoração

“En el fondo, todas las mujeres son putas y quieren que se las trate como putas…
 ¡Mezclado con un poco de adoración!”  (Anaïs Nin - Henry y June)



Deixei de lado as conversas e algumas redes sociais nas quais me entretia deitada na cama, cansada, mas insone. Acontece muito comigo, o corpo pede descanso, mas a cabeça continua inquieta, as idéias pululam. Foi pensando nas possibilidades de não-sei-o-quê que as horas multiplicaram-se, nem vi o sol nascer. Com o calor matinal, adormeci.

...

Chamou uma, duas, três vezes, abri os olhos e ele estava lá, não posso negar que gostei de vê-lo, mesmo depois de tanto tempo, ainda não me acostumei com seus hábitos, sumia repentinamente e da mesma forma retornava aos meus olhos, à minha boca...

-Bom dia.
-Bom dia...

Conferi o relógio, dez da manhã, como gostaria de ter dormido mais!

Na verdade, eu sempre o recebia meio na defensiva, enciumava-me e pensava em perguntar por onde e com quem andou no tempo em que estivera ausente. "Preciso ser mais dura, isso sim!" - prescrevia-me mil mudanças de comportamento, mas nunca conseguia tal façanha. Bastava que a inspiração voltasse para que meu espírito se enchesse de alegria e de uma vontade inconfessa de dizer-lhe apenas que "não há orgulho no mundo que vença a necessidade que sinto de seu toque, ela é tão grande que, em certas noites, converte-se em uma dor física vinda não sei de onde."

Tanto me disseram para não brincar com fogo! Não adiantou, agora é preciso aguentar: o corpo queimando e o coração ardendo são apenas consequências.

-Como você está?
-Com sono...

Afundei a cara no travesseiro, tinha consciência do estado de desordem de meus cabelos, nem eu me animava com minha própria aparência pela manhã. Ele esboçou um sorriso, mas falou sério:

-Então eu vou ter que acordar você.

Respondi com um não prolongado e puxei o lençol, quase escondendo o rosto. Teimoso como só ele, puxou de volta, descobriu-me e aproximou-se.

-Pensei que não queria mais saber de mim...
-Deixa disso.
-Mas é, estava tão distante e...
-Agora estou aqui.

Beijou-me os ombros e o pescoço, sendo terno e ao mesmo tempo quente, ele fazia com que todas as outras coisas do mundo se tornassem secundárias, mas eu sabia que não deveria acumular expectativas para além do momento de entrega. Encarava-me antes e depois de aceitar a boca que eu lhe oferecia, como numa transição, minha ansiedade dava lugar ao desejo crescente e eu deixava sempre que me lesse do início ao fim. Deslizou as mãos em meu busto, por cima do short doll verde, sentiu como me arrepiava os mamilos, meu tesão era a resposta que buscava. Encontrou, satisfeito.

-Deixa-me ver esses seios lindos...
-Não, você prefere os menores, eu li!
-Cala a boca!

Era gostoso dever-lhe alguma obediência, despia-me habilmente e eu sabia que só pensava em como encaixar-se em meu corpo da melhor forma. Afastando-me as pernas, mergulhava em meu sexo e recolhia meu prazer na ponta da língua - assim ele me dava sua adoração.



***

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

TEXTO LITERÁRIO - Algumas pistas


Na atualidade, estamos expostos a inúmeros textos, querendo ou não, em todas as atividades cotidianas nos são solicitadas leituras, interpretações não só de palavras, mas também de gestos, posturas, imagens e diversas outras formas de expressão.

Falar de leitura, então, é uma tarefa que vem se mostrando bastante delicada, não só pela imensa quantidade de material disponível para os leitores, mas também pelos mitos que acabam sendo tomados como verdade e dominam o senso comum. Muito se fala em Literatura e muito se vende Literatura, mesmo que pesquisas apontem para a afirmação generalizante de que os brasileiros, em especial os jovens, não leem.

Antes de qualquer discussão ou julgamento acerca do valor literário de uma obra, faz-se necessário diferenciar o texto literário do não-literário, pois essa distinção nem sempre é muito clara ou consciente. A discussão é muito polêmica, mas podemos apresentar algumas das propriedades utilizadas para caracterizar, atualmente, o texto literário.

Não há nenhum critério temático que defina a literariedade de um texto, qualquer assunto pode ser abordado, a questão do conteúdo pode ser encarada mais como de preferência de época, pois em cada período histórico existem temas de maior interesse.

Outro fator que alguns consideram como distintivo é a ficcionalidade, mas a idéia de que apenas textos de ficção são literários não se sustenta devido à natureza verossímil da Literatura, pois esta trabalha com fatos que geralmente dizem algo ao leitor ou mostram acontecimentos que poderiam acontecer com qualquer pessoa, deixando sempre no ar uma dúvida sobre o que seria, então, verdade nas situações representadas.

Para entender o texto literário e fazer uma leitura proveitosa, é preciso entender que os conteúdos, assim como as palavras e a opinião apresentados nem sempre são novidade, o diferencial está no plano expressivo, ou seja, na forma como o autor trabalha as palavras, recria o mundo e dentro dele multiplica as possibilidades de visão, fazendo com que o mais importante na composição não seja o que ele diz, mas a forma como diz. É neste processo que entram os recursos de estilo, tais como ritmo, oposições, simetrias, repetições e diversos outros recursos que objetivam criar uma forma diferenciada de organização da expressão.

A intangibilidade é outro fator que constitui a natureza literária de um texto, uma vez que nenhuma obra pode ser resumida, comentada ou adaptada sem que perca sua essência. Isso demonstra a importância da leitura do texto original, pois um texto resumido perde o trabalho expressivo do autor e geralmente não possibilita a mesma interpretação do texto na íntegra.

Ainda no plano da expressividade, temos aquela velha diferença entre os sentidos conotativo e denotativo estudada nas aulas de língua portuguesa como essencial para qualquer leitura. O texto literário é conotativo, nele os sentidos das palavras e a forma como elas se relacionam umas com as outras são diferentes e por isso os escritores utilizam-se de muitas figuras de linguagem, como metáforas, antíteses e metonímias. Nestes casos, a visão denotativa, com sua interpretação fechada no sentido literal que se encontra no dicionário não possibilita a compreensão das subjetividades e do sentido paralelo presentes no texto.

Há, ainda, a desautomatização da linguagem, os textos literários buscam criar novas relações entre palavras e frases para que o sentido se estabeleça de combinações que retratem novas formas de ver o mundo. Os textos não-literários se caracterizam por sua função utilitária (informar, explicar, convencer, ordenar e etc.) e neles o sentido é um só, já nos textos literários as possibilidades de sentido são múltiplas e variam de leitura para leitura, de leitor para leitor.

Assim sendo, nos textos literários a preocupação maior é com a expressão, com a forma de dizer algo, o que pode ser visto a partir dos traços aqui apresentados: importância do plano de expressão, trabalho com a conotação, possibilidades diversas de sentido, intangibilidade da organização textual, entre outras coisas.

É importante ressaltar que a linguagem em função estética, o uso destes recursos não é feito apenas na Literatura, estes também ocorrem em trabalhos publicitários, brincadeiras infantis, jogos de palavras e outras atividades do cotidiano, pois o homem sempre se encantou com cadeias de sons e ritmos. É necessário destacar ainda que, se a Literatura é o local de uso privilegiado dos recursos estéticos apresentados, dentro dela, é na poesia que tais usos são mais amplamente explorados.

Concluindo: o que faz a diferença na leitura de uma produção literária é a forma como estes recursos são entendidos e interpretados pelo leitor, o trabalho do escritor é, portanto, construir um discurso sobre um tema que não é novo, com palavras que já existem, mas de uma forma particular e original que possibilite um novo olhar sobre os assuntos da vida.




Aline Patricia

Natal, maio de 2010.

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Pra fechar nos 50.

Eu não ia escrever nada hoje, assim como também não escrevi no natal, ando meio sem criatividade e, principalmente, sem paciência pra esse blá blá blá de fim de ano e suas repetições nada originais.. Entrei aqui quase que involuntariamente, naquela coisa que todo dono tem, necessidade de sempre conferir se está tudo em ordem na casa, pois bem, olhei os comentários, os seguidores, as visitas e eis que reparei, não sem ficar bastante feliz, que a quantidade de postagens no blog praticamente duplicou em 2010, se compararmos com os números anteriores. Foi nesse ano que escrevi aqueles que considero meus melhores textos, em meio à uma montanha-russa sentimental consegui converter dúvidas, desejos e até lágrimas em tantas crônicas, contos e até poemas...
Estou satisfeita.
Só que sou cismada feito o diabo e, quando me atenho a um detalhe e essa coisa me pega, tenho que fazer algo, quieta é que eu não fico. Por isso dei uma pausa na batalha que está sendo me arrumar e estou postando agora: não conseguiria sair e deixar essa numeração 49 nas postagens, seria como se deixasse algo incompleto, sei lá, cada louco com a sua mania.


E Feliz 2011.

domingo, 12 de dezembro de 2010

Pensando num ano bom...


"A primeira coisa que faço quando chego em casa depois de um dia de trabalho é tirar os sapatos e resistir à vontade de me deitar na cama com roupa e tudo, atitude que minha mãe considera reprovável. Só que é isso que quero fazer agora, quero me permitir uma folga, quero fazer o que me dá vontade - quando entrar nesse tal de ano novo, vou tirar os sapatos e não mais me censurar. Me atirarei na cama e, como é de meu desejo, darei um pouco de descanso para a cabeça, menos responsabilidade para as costas e um espaço para a doçura que anda escondida aqui dentro. "

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

OLHOS NOS OLHOS - Para se ler ouvindo o Chico...


"(...)Tantas águas rolaram,
                                                                                                                                                              Quantos homens me amaram 
Bem mais e melhor que você."



Já estava na porta da loja, quando me dei conta. Dois passos curiosos e olhei em volta. Um moço organizava qualquer coisa, cumprimentei-o e perguntei.

- O "Martim" está?
-Está sim, quer falar com ele? Vou chamar.

Me olhou de cima a baixo rapidamente e sumiu por uma pequena entrada lateral. Esperei, em pé mesmo, olhando alguns anúncios e objetos decorativos do balcão, mas sem me atrever a tocar em nada, meu jeito desajeitado já havia proporcionado vergonhas demais. "Não toque em nada!" me autopoliciava como se faz com uma criança.
Surpreso, foi assim que recebeu minha presença ali, os mais de 500 km eram apenas um detalhe entre as tantas coisas que hoje nos distanciavam.

- Ah, você ainda está viva?
- Sim, estou bem viva.
- E o que faz por aqui, passeando?
-Não, vim participar de um evento, na UFC...
-Ah, sim, os seus congressos, tinha esquecido. Vamos sentar, conversar em pé não dá.

Apontou para um sofá preto no canto esquerdo. Sentamos e o lugar era muito melhor, mais ventilado.

- Quer alguma coisa? Café, água...
- Não, obrigada.
- Enfim, como estáo as coisas por Parnamirim? Tudo bem com a família?
- Está tudo bem sim, do mesmo jeito de sempre. E com a sua?
-Também na mesma. Veio sozinha?
-Não, com um pessoal do curso...
- Meu pai até hoje pergunta por você, imagine só!
- [risos] Eu adoro aquele velho! Diga que mandei um abraço e que talvez eu vá visitá-lo qualquer dia.
De vez em quando olhava para a porta e eu acompanhava seu olhar, até que não me contive:

- Esperando alguém? Se estiver, desculpe, não quero atrapalhar...
- Ninguém, coisas do trabalho. Muita coisa, agora é assim.

Uma das coisas que sempre nos distinguiu foi a ambição. Eu sempre tive sonhos, planos e projetos de crescimento, ele não. Minhas preocupações com futuro, boa formação profissional não o agradavam, eu queria o melhor, não só pra mim, e tentava fazer-me fortaleza e apoio, dizia que ele não deveria se resumir àquilo que a realidade imediata oferece, mas ir além. Lembro que ele respondia me fazendo qualquer carinho e me chamava de sonhadora.

- E aí, já está perto de casar?
- Eu? Claro que não, ainda tenho juízo! [risos] E você?
- Também não, agora sou um solitário.
- Ah, espero que logo apareça alguém.
- Espera mesmo?

Que perguntinha mais pretensiosa, pensei, talvez ache que ainda padeço com todo aquele passionalismo de tempos atrás. Ouvia cada palavra com atenção, adivinhava-as acintosas, maldosas, pareciam atravessadas por um certo rancor. Eu olhava para o passado e não entendia seus motivos, pois, no fim das contas, todas as atitudes que fizeram as coisas se desencaminharem foram tomadas por ele, disso não guardo nenhum remorso.

- Espero sim, acho que todo mundo precisa de alguém.
- E você já tem alguém?
-Não, mas nem estou apressada, um dia terei.

Ele sorriu, e a isso não consegui responder.
Quando entrei na loja, não sabia nem pra quê estava indo ali, mas desde quando me arrumara, parecia ter as coisas muito bem definidas, seja na frente do espelho, indecisa entre cabelo preso ou cabelo solto ou na escolha da vestimenta: jeans ou vestido? Fiquei com a segunda opção. Apesar de não estar acostumada a usá-los, sempre achei os vestidos bem mais femininos - leve, marcado na cintura e com um bom decote, não tão curto, mas também não tão longo, suficientemente revelador, que lhe saltasse aos olhos. Provocaria-o com uma aparição inesperada. Nada de saudade ou intenção de reconquista, mas um momento muito apreciado pelas mulheres: o de mostrar que está melhor, e muito, sem ele.

E então vi que era hora de me despedir, a conversava ultrapassava os limites da tensão que parecia estar sob controle no início e eu não queria que chegasse ao ponto de ser interrogada sobre novos amores, paixões ou coisas de que ele soubera ou lera. Não que acreditasse que ele ainda sentisse algo por mim, mas ele sabia ser desagradável quando quer, todo mundo sabe.

Ainda teria que sair com algumas colegas, justifiquei. Levantou-se e me acompanhou até a saída, sem nenhum contato mais direto.

-Cuide-se, quero receber boas notícias suas!
-Você também. E a formatura, quando vai ser?
-Em março.
-Vai ter mesmo festa?
-Vai sim...
-É uma data importante, se eu puder, apareço. Até lá aviso.
-Ok. Tchau!

Atravessei a rua quase correndo e segurando a barra do vestido que um vento safado insistia em agitar. Lá do outro lado eu o vi ainda na porta, acenei e sorri. Meu coração não disparou - estava livre, finalmente. Segui andando.

sábado, 27 de novembro de 2010

Um saldo

O mundo acadêmico é competitivo e, por vezes, até injusto, não são só conhecimento e avanços científicos que são gerados e fomentados nos corredores e departamentos das grandes universidades. Como quase tudo na vida, existe um outro lado, que é o cultivo de vaidades, deslealdades e outros atos e gestos não-tão-nobres que nem merecem ser citados.

Quando ingressei no curso de Letras, não tinha a ambição de me tornar pesquisadora ou fazer pós-graduação, a escolha partiu de minha afinidade com a Literatura e do gosto pelo ensino. Por duas vezes pensei em abandonar essa empreitada, fazer alguma outra coisa da minha vida: a primeira, quando me desencantei com a forma dura e artificial dos estudos literários nas disciplinas que tanto idealizei, e a segunda, quando cansei de esperar cair nas graças de algum professor para ter a oportunidade de me engajar em algum projeto ou pesquisa. Foram dias de desânimo dos quais só saí quando tive a chance de participar de um projeto de inclusão social, ministrar aulas para alunos de camadas mais populares, mais do que qualquer coisa, me deixou feliz e me deu a certeza de que a docência é o meu caminho.

Agora estou em clima de final de curso, preparativos para a formatura e saudade cada vez mais explícita. Junto com tudo isso, vem a pergunta: o que vou fazer depois de formada? Acordar um belo dia, já diplomada e ter que dar a cara à tapa, enfrentar todos os problemas do sistema educacional, o descaso e a desvalorização profissional que tanto motivaram as críticas daqueles que nunca concordaram com o curso por mim escolhido é uma possibilidade amedrontadora.

Com a estabilidade alcançada nos últimos anos de curso, me inscrever e tentar ingressar no mestrado foi uma opção irresistível. Confesso que as viagens, os elogios e as publicações alimentaram em mim um certo orgulho, tanto que sempre estive ciente de que, caso não passasse, a maior decepção seria de mim comigo mesma. De cara, uma concorrência que assustaria qualquer um, além de muito sono perdido, para conciliar as leituras das disciplinas que ainda me faltam com as de Linguística indicadas para o exame.

Quando vi o resultado, senti-me injustiçada, ainda me sinto, mas ao mesmo tempo me alegrei pela aprovação de amigos queridos que realmente merecem a carreira de sucesso que está apenas no início. Por mim, chorei, e não foi pouco, lembrar das outras ocasiões em que entrei confiante em seleções e não fui aprovada foi algo inevitável, as coisas nunca foram fáceis pra mim nesse meio. Precisei de um colo de mãe e de um afago dos amigos para finalmente compreender o quão inútil é me martirizar por isso e até me arrependi de ter me submetido a esse crivo tão precocemente.

Hoje de manhã cedo preparei um café, abri as janelas e portas que acentuavam o clima de tristeza no meu quarto e guardei os livros comprados com tanto esforço. "Para o ano que vem" - pensei, ganhei alguns meses para me dedicar a mim mesma, escrever meus textos e pensar, pensar bastante. Acho que finalmente aprendi e não vou mais traçar planos nem resoluções definitivas para nada, afinal, eu só tenho 21 anos. =)

domingo, 21 de novembro de 2010

[...]

Eu não sei fazer poemas
A métrica não se deixa dominar
E as coisas que quero dizer parecem ficar sempre soltas
Não sei se me lanço em um poço (pouco) de indiferença
ou se vou pleitear a conquista de mais uma noite
Escrevo com a euforia de quem está aprendendo a subverter os sentidos

Sei que enquanto você sai na noite
Fria e solitária como nunca conheci
Perambula pelas ruas e entra em um bar
Buscando uma distração ou sempre mais uma dose
Eu vou estar em casa dormindo o sono dos não-tão-justos
Ouvindo música
Estudando gramática mesmo contra a vontade
Ou girando por algum salão de festas iluminado
Não gastando nada em mim além das sandálias

Nunca havia desejado tanto que os fins de semana chegassem logo
Cansada de tantas ausências, fatigada pelo excesso
De coisas desinteressantes que eu busco superar
Como naquela manhã de domingo na qual descobri
Que a coisa que mais me encanta e atrai é o contraste
Da tua pele, branca como parece impossível que seja a alma
Na minha cor que reflete outra ascendência
e uma preferência pelo calor cultivada de sol-a-sol

Trazes no peito um amor alviverde
Enquanto meu melhor sono é sobre o escudo do inimigo
E eu que já oscilei em temperamentos e hormônios
Ando até esquecida do salgado gosto das lágrimas
Porque não é como uma brisa afetada que me tocas
Mas o que me inspiras é uma certa violência de gestos e palavras
Na expectativa abrasadora de tuas idas e vindas

Não sei que aspirações me são lícitas
Se nos diferenciamos na ambição
Da vida eu não sei querer nada que não seja o muito
De ti, meu pecado é sempre querer mais um pouco
Quando estremeço no teu colo o mundo parece ser menos adverso
E é por isso que me entrego ao gosto de que me vires ao avesso
Mas não sem querer te prender a mim numa sutil dominação.



domingo, 7 de novembro de 2010

Veja bem, meu bem...


Eu não me importo de não ser a mulher mais linda dessa cidade, assim como nunca tentei fazer-me resposta sendo a Anaïs Nin que todo Henry Miller procura, pois não quero, nunca quis fazer linhas ou versos que repetissem uma história já contada. Eu quero fazer algo novo, mesmo sabendo que a vida que nos (per)segue é uma sucessão de repetições nas quais aprender ou não é conquista individual. Só que agora não consigo dormir, tenho uma certa culpa por ter deixado você sozinho, além de não me conformar com o silêncio repentino que me acometeu, quando sempre tive certeza de que palavras não me faltariam. Mas elas fugiram, de tão simples revelaram-se difíceis demais, as duas ou três frases morreram em meus lábios, indomáveis, recusaram-se a sair, mesmo sendo tão claro
que eu ficaria, que acredito
e que se me chamasse, eu iria...
mesmo sem saber pra onde.

***

terça-feira, 2 de novembro de 2010

DO ALTO

Ela era mais uma entre tantas meninas. Tinha idade e aspirações que remetiam a uma mulher bem resolvida, mas no fundo se recusava a aceitar a gravidade da visão adulta.

Começou gostando de ler as narrativas, passado o susto inicial até se divertia. Não escrevia assim, mas apreciava a acidez e o despudor. Com as descobertas, passou a concentrar sua atenção noutro gesto: sentada aos seus pés, seria capaz de ficar ouvindo aquelas aventuras por horas, sem deixar de dar palpite aqui e ali. Era uma vida muito diferente, quanto mais ouvia mais tinha certeza de que não vivera nada ainda, ou quase nada, o grande mistério era haver um foco de interesse quando tudo apontava para uma natural dispersão. O que ela tinha de mais, ele tinha de menos.


- Queria ter menos juízo, acho que tudo seria mais fácil...
-E eu queria ter mais. Se pudesse roubava um pouco do teu.



A infantilidade dela trazia o ânimo que a vida pregressa havia furtado dele.
Uma noite não dormiu, tiveram uma longa conversa, produtiva, lírica, onírica e cheia de contrastes, eram como partes dissonantes de uma dialética na qual ambos não queriam chegar ao lugar-comum.
O que teria a oferecer a um amante? Isso ela não sabia, bem como uma infinidade de outras coisas nas quais nunca parou para pensar. Só queria continuar batendo à porta dele e aguardando sua abertura para dizer: "Tenho teorizado demais a vida, estou cansada. Me tira um pouco disso tudo?".
Quando vinha, ele não costumava ser sutil. Por natureza, imprevisível. Enquanto ela ouvia a seus pés, o tom era meio magistral, como se quisesse dar ao seu muito vivido valia de ensinamento. Falava da vida, dos achados artísticos, da sedução dos vinhos e da banalidade dos sentimentos. Era um excêntrico, louco como o anjo que renega seu lugar entre os eleitos para dedicar-se a um deleite profano.



-Cogitar "por quanto tempo" é perda de tempo, meu bem. Eu vou ficar em teus braços o tempo que for.



Respondia puxando-a para si, oferecendo seu colo para depois incitar-lhe o querer beijando a boca. Ela nada dizia. Não resistia nem deixava, se entregava - nisto há uma diferença sutil. Bolinava, dominava numa habilidade que era até cruel, subverter o convencional do amor em tesão é a mais justa das formas de driblar o ócio.
Curiosidade, fingimento ou como quisesse ele chamar, não fazia muita diferença. Tudo nela era sede.

sábado, 23 de outubro de 2010

Aquário



Coitado do caranguejo,
ficou preso no aquário.
Coitado!
Mas não foi sempre assim,
antes
vivia solto.
Mas caranguejo anda de lado e vê o mundo
de outra forma.

Um dia encontrou o aquário.
A luz batendo no vidro
formava desenhos bonitos.
O caranguejo ficou fascinado,
achava tudo tão belo,
achava o aquário seguro.

Fez tanto esforço o bicho,
subiu como pôde e chegou lá no topo.
Coitado,
não vê que não há nada,
é só a luz refletida na caixa de vidro.


"Sai daí caranguejo, volta para a sua vidinha vazia."
- Que sai que nada...
e lá se vai o caranguejo para dentro do aquário.


Coitado do caranguejo, ficou preso de vez no aquário.


De
dentro é tão diferente,
a luz já não incide mais.
Não há nada,
só vazio
e o pobre do caranguejo a se arrastar pelo vidro.

O mundo passa lá fora.
Do aquário se pode ver tudo.
Mas já
não se pode fazer nada.

Caranguejo se você soubesse
como o aquário é solitário.
Deixou-se levar pela Luz,
agora é tarde,
já não dá mais para sair.
Coitado do caranguejo,
ficou preso no aquário.

Agora é morrer de fome.
Agora é morrer de
frio.
Agora é morrer sozinho.



(Walter Prozak*)




*Pseudônimo de um amigo, escritor entusiasta que me permitiu fazer algumas alterações em sua poesia, esse foi o resultado.

Sempre digo que não acredito em horóscopo ou qualquer tipo de previsão, entretanto, ao ler este poema, foi impossível não fazer a associação com algumas características do sentir de uma mulher canceriana, signo que tem como símbolo o caranguejo. :)

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Nota.

Escritor



Vários de meus textos são exercício de metalinguagem, gosto de escrever sobre a escrita: dificuldades, sentimentos e inspirações de quem se arrisca, amadoramente, por esse mundo.
As inquietações já não são as mesmas de quando comecei, as temáticas são variáveis e os pincéis utilizados para representar as coisas desse mundo também mudam constantemente.
As más companhias e os bons livros estão ao alcance de qualquer um, basta encontrá-los.
Quando criança, eu dizia querer ser uma "escritora famosa", hoje troco qualquer fama por uma boa sombra onde possa armar minha rede amarela e seguir com meus rabiscos.
Aprendi com o Jorge Cortás Sader Filho que escritora eu já sou, escritor é todo aquele que escreve, mas ter qualidade técnica e literariedade já são "outros 500"...
Estou correndo atrás.


quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Duas palavras, uma tentativa.


FOLHETIM

Trad. do fr. feuilleton, com alter. suf. (v. -im).]
S. m.
1. Seção literária de um periódico que ocupa, de ordinário, a parte inferior de uma página; gazetilha.
2. Fragmento de romance publicado em um jornal dia a dia, suscitando o interesse do leitor.
3. P. ext. Lus. Novela (3).



Encontrei tal definição no Dicionário Aurélio - Século XXI, quando procurava me assegurar de que a ideia que tivera na noite anterior não era tão absurda. O vivido sempre foi o tema de maior influência em minha produção escrita, juntamente com o sonhado e o desejado.

- Oscar Wilde dizia que "a vida imita a arte muito mais do que a arte imita a vida", não sei se concordo - conversava com um amigo na madrugada.
- Acho que é um ciclo. - respondeu-me, ponderadamente.
- Explica-me melhor, pedi.
- A vida imita arte após a arte ter imitado a vida. Over and over. Again and again.

Deu-me a prova dos nove, mesmo sem saber, afinal de contas, seguir o ciclo não é o que estou fazendo enquanto transcrevo para cá trechos de nossa conversa? Ou quando, antes de cogitar qualquer possibilidade de fazê-lo, joguei a frase do escritor irlandês na roda para uma discussão? Entendi que Vida e Arte se complementam, meu caro, não há sobreposição ou tentativa de separação, a arte não é só um resultado, é o trato do olhar humano sobre todas as coisas, sejam elas belas ou feias, tanto no ficcional quanto no biográfico - puxando pro meu lado, pra Literatura. O motor somos nós que alimentamos.


Dito isto, peço licença e me recolho à luta vã.