sábado, 19 de setembro de 2009

MULTIFACES

Um gênero multifacetado. Definição breve, objetiva, mas com um caráter tão abrangente que, muitas vezes, deixa-nos, leitores de ensaios e ensaístas amadores, cheios de receio e apreensão.
O termo ensaio, em sua raiz etimológica, já nos fornece indícios de suas peculiaridades. Em meus primeiros contatos com a palavra em si, associei o gênero à própria idéia do “tentar”, fazer seu discurso sobre algo no momento, literalmente ensaiar. Neste ponto, encontra-se um dos grandes atrativos para a leitura de ensaios: a liberdade com a qual o assunto é tratado, deixando aflorar toda a pessoalidade do autor em breves (ou nem tanto) linhas.

Certa vez ouvi, em uma exposição sobre o ensaio, que alguém definiu o gênero como um texto no qual o escritor se mostra. Parte desse pressuposto o meu interesse: conhecer o pensamento daqueles ensaístas, ver como eles discutiam assuntos que permanecem tão atuais, bem como poder contrastar essas opiniões com as que temos hoje acerca do mesmo tema e que, não raramente, apresentam pontos de igualdade.

Ontem estava eu no ônibus voltando para casa, e aproveitei para folhear Os Ensaios de Montaigne, quando o cobrador aproximou-se de mim e perguntou: - “Isso é Filosofia?” Respondi: - ”Um pouco...” Ele então insistiu no diálogo: - “E fala sobre o quê?” Mais uma vez minha resposta saiu um pouco evasiva: “São ensaios, falam sobre a vida, os acontecimentos da vida e como um homem se posiciona diante deles.” Ao meu interlocutor creio que essa resposta deve ter soado muito evasiva, na verdade tive a sensação de que a pergunta do cobrador talvez não tenha recebido a exatidão esperada na resposta... Mas o que eu poderia dizer? Repetir que é um gênero híbrido e multifacetado e que por isso mesmo de difícil definição? Não creio que bastasse.
Parece-me que na vida nenhuma definição é suficiente.

E isso me traz à memória o dia em que duas garotas iniciantes do curso de Letras foram pedir orientação a uma professora sobre como deveriam fazer um ensaio que lhes fora solicitado. Prontamente, receberam uma resposta que não ajudou muito: “Ah! O ensaio é um texto que você faz com o coração... Claro que não foi suficiente, ao contrário, essa (in)definição povoou ainda mais as nossas cabeças com dúvidas que trazemos até hoje na metade do curso.No entanto, não procuro mais respostas a essas dúvidas, mas as tenho como o estímulo para quem busca sentir o ensaio e se atreve a mostrar, nessas poucas linhas, um pouco de si.

3 comentários:

Junior disse...

Minha flor escreve bem demais! O tempo so tem feito bem, um texto mais complexo que reflete seu amadurecimento minha menina... fico feliz por saber que a inspitação voltou sei que sou suspeito pra falar mas é a verdade, não sou entendido dessas coisas, mas a gente sabe reconhecer o que é bom! Beijão

Tempestade disse...

Caiu como uma luva essa sua reflexão.
Essa semana entreguei um capítulo da minha dissertação para a minha orientadora. No gabinete dela, passou os olhos nas folhas e disse, "pode incorpar mais o texto, e esse trecho aqui que você diz projeções, só isso?" e eu pra sair com uma resposta, disse "é um ensaio", e ela respondeu, "agora está na hora de fazer pra valer".
Então ensaio seria uma tentativa? Eu ainda acho que o ensaio é um texto que tem muito do autor, mas não deve ser visto como tentativa. Humilde opinião de uma bibliotecária apaixonada pelas letras e quase mestre.
Beijos!

Ângelo disse...

Excelente.

Adorei o estilo, de certa forma me remeteu às crônicas de Nelson Rodrigues no livro "A cabra vadia", onde assuntos comumente ignorados pela maioria são abordados de maneira simples, de modo a fazer com que o leitor entenda, na mais ampla concepção da palavra, do que trata o texto.

Essa maneira evasiva de responder, como você acidentalmente fez ao cobrador e que a professora propositadamente fez às alunas, ao invés de aproximar o interesse do interlocutor, acaba por afastá-lo. É bem verdade que no caso do cobrador, provavelmente você não tinha muito terreno para trabalhar a sua resposta, mas o lirismo excessivo da resposta da professora a alunas de letras é tão cruel que chega a beirar o hermético.

Enfim, você escreve MUITO BEM.

Paguei pau, mas fazer o que se é verdade?

Beijos, me surpreendeu(não que houvesse expectativa negativa, eheuheue).