terça-feira, 27 de janeiro de 2009

O eterno instante de uma ilusão perdida


-Tchau.
Ele desligou.
Inconscientemente a moça recolhe o telefone junto ao peito, como se o gesto acalentasse o misto de angústia e decepção que dominam o seu espírito: “Eu não acredito. Tem que ser muito cara-de-pau para fazer uma proposta dessas. Ah, como ele pôde! Decerto não percebe o quanto isso me ofende... ou será que percebe? Quantas vezes eu disse que faria tudo para ficar ao seu lado, como sempre estive esse tempo todo, mas isso já é demais! Não, eu não posso admitir esse tratamento, é isso que ele quer que eu seja, uma AMANTE, como se despreza assim tanta dedicação? Eu mereço mais, muito mais, não me conformarei com migalhas de amor! Meu Deus, como é possível que uma pessoa mude tanto assim? E eu que pensava que ele era diferente dos outros homens, pelo menos foi o que ele demonstrou até agora, será que me enganou todo esses tempo? Tantas palavras, tantas juras, e o olhar... ah, quantas será que ele já não deve ter iludido com aquele olhar! Preciso tomar algo. Cerveja?... Não, não é horário, talvez mais tarde eu saia, quem sabe deixar a doideira bater me faça esquecer, pelo menos um pouco... Vou tomar café.”
A moça prepara seu café maquinalmente, absorta em seus pensamentos: “Não, não, eu não posso admitir isso, e minha dignidade, onde é que fica? Tenho mais é que dar um basta, ele que se divirta com o seu brinquedinho novo! Mas eu o amo tanto, por que será que ele parece insensível aos meus apelos? O amor acabou? Ou será que ele nunca existiu? Quem sabe se ele não fosse tão arredio eu conseguiria o convencer de que sou a única que o amou, pois nenhuma outra jamais fará os sacrifícios que eu fiz! Burra. Como eu sou burra! A quem eu estou querendo enganar afinal? Apenas a mim mesma... Eu o quero, Não quero o perder. Por que é que a porra do amor tem que doer tanto? Será que não dói neles também? O café é solúvel. Os homens, volúveis... Ah, a solução! Bem que poderiam vender em frascos igual ao café. Lembra aquela música.
A fórmula do amor
... do desamor?
Eu ficaria rica. Finalmente um alívio para tantas pobres mulheres que sofrem assim como eu. Que loucura! Já levou minha alegria, será que agora vai levar também minha sanidade? Preciso dar um jeito nessa bagunça.”
A moça arruma as coisas rapidamente e parte para a pia, lavar o copo: “Nem sei o que dizer, nem sei o que faço, como fico, será que vale a pena um esforço? Nem sei mais se é amor ou ódio, tanta coisa, tanta coisa... Como são mesmo aqueles versos famosos que viraram música...?”
Sem perceber seus dedos passam a apertar o vidro cada vez mais forte:
“A boca que me beija é a mão que me apedreja...”
Um forte estalo a acorda de sua letargia, o sangue escorre da mão que ainda segura restos do que outrora fora um copo, e respinga nos cacos que cintilam no interior da pia.
Enfim sua dor terebrante se exteriorizara.