sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Pra fechar nos 50.

Eu não ia escrever nada hoje, assim como também não escrevi no natal, ando meio sem criatividade e, principalmente, sem paciência pra esse blá blá blá de fim de ano e suas repetições nada originais.. Entrei aqui quase que involuntariamente, naquela coisa que todo dono tem, necessidade de sempre conferir se está tudo em ordem na casa, pois bem, olhei os comentários, os seguidores, as visitas e eis que reparei, não sem ficar bastante feliz, que a quantidade de postagens no blog praticamente duplicou em 2010, se compararmos com os números anteriores. Foi nesse ano que escrevi aqueles que considero meus melhores textos, em meio à uma montanha-russa sentimental consegui converter dúvidas, desejos e até lágrimas em tantas crônicas, contos e até poemas...
Estou satisfeita.
Só que sou cismada feito o diabo e, quando me atenho a um detalhe e essa coisa me pega, tenho que fazer algo, quieta é que eu não fico. Por isso dei uma pausa na batalha que está sendo me arrumar e estou postando agora: não conseguiria sair e deixar essa numeração 49 nas postagens, seria como se deixasse algo incompleto, sei lá, cada louco com a sua mania.


E Feliz 2011.

domingo, 12 de dezembro de 2010

Pensando num ano bom...


"A primeira coisa que faço quando chego em casa depois de um dia de trabalho é tirar os sapatos e resistir à vontade de me deitar na cama com roupa e tudo, atitude que minha mãe considera reprovável. Só que é isso que quero fazer agora, quero me permitir uma folga, quero fazer o que me dá vontade - quando entrar nesse tal de ano novo, vou tirar os sapatos e não mais me censurar. Me atirarei na cama e, como é de meu desejo, darei um pouco de descanso para a cabeça, menos responsabilidade para as costas e um espaço para a doçura que anda escondida aqui dentro. "

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

OLHOS NOS OLHOS - Para se ler ouvindo o Chico...


"(...)Tantas águas rolaram,
                                                                                                                                                              Quantos homens me amaram 
Bem mais e melhor que você."



Já estava na porta da loja, quando me dei conta. Dois passos curiosos e olhei em volta. Um moço organizava qualquer coisa, cumprimentei-o e perguntei.

- O "Martim" está?
-Está sim, quer falar com ele? Vou chamar.

Me olhou de cima a baixo rapidamente e sumiu por uma pequena entrada lateral. Esperei, em pé mesmo, olhando alguns anúncios e objetos decorativos do balcão, mas sem me atrever a tocar em nada, meu jeito desajeitado já havia proporcionado vergonhas demais. "Não toque em nada!" me autopoliciava como se faz com uma criança.
Surpreso, foi assim que recebeu minha presença ali, os mais de 500 km eram apenas um detalhe entre as tantas coisas que hoje nos distanciavam.

- Ah, você ainda está viva?
- Sim, estou bem viva.
- E o que faz por aqui, passeando?
-Não, vim participar de um evento, na UFC...
-Ah, sim, os seus congressos, tinha esquecido. Vamos sentar, conversar em pé não dá.

Apontou para um sofá preto no canto esquerdo. Sentamos e o lugar era muito melhor, mais ventilado.

- Quer alguma coisa? Café, água...
- Não, obrigada.
- Enfim, como estáo as coisas por Parnamirim? Tudo bem com a família?
- Está tudo bem sim, do mesmo jeito de sempre. E com a sua?
-Também na mesma. Veio sozinha?
-Não, com um pessoal do curso...
- Meu pai até hoje pergunta por você, imagine só!
- [risos] Eu adoro aquele velho! Diga que mandei um abraço e que talvez eu vá visitá-lo qualquer dia.
De vez em quando olhava para a porta e eu acompanhava seu olhar, até que não me contive:

- Esperando alguém? Se estiver, desculpe, não quero atrapalhar...
- Ninguém, coisas do trabalho. Muita coisa, agora é assim.

Uma das coisas que sempre nos distinguiu foi a ambição. Eu sempre tive sonhos, planos e projetos de crescimento, ele não. Minhas preocupações com futuro, boa formação profissional não o agradavam, eu queria o melhor, não só pra mim, e tentava fazer-me fortaleza e apoio, dizia que ele não deveria se resumir àquilo que a realidade imediata oferece, mas ir além. Lembro que ele respondia me fazendo qualquer carinho e me chamava de sonhadora.

- E aí, já está perto de casar?
- Eu? Claro que não, ainda tenho juízo! [risos] E você?
- Também não, agora sou um solitário.
- Ah, espero que logo apareça alguém.
- Espera mesmo?

Que perguntinha mais pretensiosa, pensei, talvez ache que ainda padeço com todo aquele passionalismo de tempos atrás. Ouvia cada palavra com atenção, adivinhava-as acintosas, maldosas, pareciam atravessadas por um certo rancor. Eu olhava para o passado e não entendia seus motivos, pois, no fim das contas, todas as atitudes que fizeram as coisas se desencaminharem foram tomadas por ele, disso não guardo nenhum remorso.

- Espero sim, acho que todo mundo precisa de alguém.
- E você já tem alguém?
-Não, mas nem estou apressada, um dia terei.

Ele sorriu, e a isso não consegui responder.
Quando entrei na loja, não sabia nem pra quê estava indo ali, mas desde quando me arrumara, parecia ter as coisas muito bem definidas, seja na frente do espelho, indecisa entre cabelo preso ou cabelo solto ou na escolha da vestimenta: jeans ou vestido? Fiquei com a segunda opção. Apesar de não estar acostumada a usá-los, sempre achei os vestidos bem mais femininos - leve, marcado na cintura e com um bom decote, não tão curto, mas também não tão longo, suficientemente revelador, que lhe saltasse aos olhos. Provocaria-o com uma aparição inesperada. Nada de saudade ou intenção de reconquista, mas um momento muito apreciado pelas mulheres: o de mostrar que está melhor, e muito, sem ele.

E então vi que era hora de me despedir, a conversava ultrapassava os limites da tensão que parecia estar sob controle no início e eu não queria que chegasse ao ponto de ser interrogada sobre novos amores, paixões ou coisas de que ele soubera ou lera. Não que acreditasse que ele ainda sentisse algo por mim, mas ele sabia ser desagradável quando quer, todo mundo sabe.

Ainda teria que sair com algumas colegas, justifiquei. Levantou-se e me acompanhou até a saída, sem nenhum contato mais direto.

-Cuide-se, quero receber boas notícias suas!
-Você também. E a formatura, quando vai ser?
-Em março.
-Vai ter mesmo festa?
-Vai sim...
-É uma data importante, se eu puder, apareço. Até lá aviso.
-Ok. Tchau!

Atravessei a rua quase correndo e segurando a barra do vestido que um vento safado insistia em agitar. Lá do outro lado eu o vi ainda na porta, acenei e sorri. Meu coração não disparou - estava livre, finalmente. Segui andando.

sábado, 27 de novembro de 2010

Um saldo

O mundo acadêmico é competitivo e, por vezes, até injusto, não são só conhecimento e avanços científicos que são gerados e fomentados nos corredores e departamentos das grandes universidades. Como quase tudo na vida, existe um outro lado, que é o cultivo de vaidades, deslealdades e outros atos e gestos não-tão-nobres que nem merecem ser citados.

Quando ingressei no curso de Letras, não tinha a ambição de me tornar pesquisadora ou fazer pós-graduação, a escolha partiu de minha afinidade com a Literatura e do gosto pelo ensino. Por duas vezes pensei em abandonar essa empreitada, fazer alguma outra coisa da minha vida: a primeira, quando me desencantei com a forma dura e artificial dos estudos literários nas disciplinas que tanto idealizei, e a segunda, quando cansei de esperar cair nas graças de algum professor para ter a oportunidade de me engajar em algum projeto ou pesquisa. Foram dias de desânimo dos quais só saí quando tive a chance de participar de um projeto de inclusão social, ministrar aulas para alunos de camadas mais populares, mais do que qualquer coisa, me deixou feliz e me deu a certeza de que a docência é o meu caminho.

Agora estou em clima de final de curso, preparativos para a formatura e saudade cada vez mais explícita. Junto com tudo isso, vem a pergunta: o que vou fazer depois de formada? Acordar um belo dia, já diplomada e ter que dar a cara à tapa, enfrentar todos os problemas do sistema educacional, o descaso e a desvalorização profissional que tanto motivaram as críticas daqueles que nunca concordaram com o curso por mim escolhido é uma possibilidade amedrontadora.

Com a estabilidade alcançada nos últimos anos de curso, me inscrever e tentar ingressar no mestrado foi uma opção irresistível. Confesso que as viagens, os elogios e as publicações alimentaram em mim um certo orgulho, tanto que sempre estive ciente de que, caso não passasse, a maior decepção seria de mim comigo mesma. De cara, uma concorrência que assustaria qualquer um, além de muito sono perdido, para conciliar as leituras das disciplinas que ainda me faltam com as de Linguística indicadas para o exame.

Quando vi o resultado, senti-me injustiçada, ainda me sinto, mas ao mesmo tempo me alegrei pela aprovação de amigos queridos que realmente merecem a carreira de sucesso que está apenas no início. Por mim, chorei, e não foi pouco, lembrar das outras ocasiões em que entrei confiante em seleções e não fui aprovada foi algo inevitável, as coisas nunca foram fáceis pra mim nesse meio. Precisei de um colo de mãe e de um afago dos amigos para finalmente compreender o quão inútil é me martirizar por isso e até me arrependi de ter me submetido a esse crivo tão precocemente.

Hoje de manhã cedo preparei um café, abri as janelas e portas que acentuavam o clima de tristeza no meu quarto e guardei os livros comprados com tanto esforço. "Para o ano que vem" - pensei, ganhei alguns meses para me dedicar a mim mesma, escrever meus textos e pensar, pensar bastante. Acho que finalmente aprendi e não vou mais traçar planos nem resoluções definitivas para nada, afinal, eu só tenho 21 anos. =)

domingo, 21 de novembro de 2010

[...]

Eu não sei fazer poemas
A métrica não se deixa dominar
E as coisas que quero dizer parecem ficar sempre soltas
Não sei se me lanço em um poço (pouco) de indiferença
ou se vou pleitear a conquista de mais uma noite
Escrevo com a euforia de quem está aprendendo a subverter os sentidos

Sei que enquanto você sai na noite
Fria e solitária como nunca conheci
Perambula pelas ruas e entra em um bar
Buscando uma distração ou sempre mais uma dose
Eu vou estar em casa dormindo o sono dos não-tão-justos
Ouvindo música
Estudando gramática mesmo contra a vontade
Ou girando por algum salão de festas iluminado
Não gastando nada em mim além das sandálias

Nunca havia desejado tanto que os fins de semana chegassem logo
Cansada de tantas ausências, fatigada pelo excesso
De coisas desinteressantes que eu busco superar
Como naquela manhã de domingo na qual descobri
Que a coisa que mais me encanta e atrai é o contraste
Da tua pele, branca como parece impossível que seja a alma
Na minha cor que reflete outra ascendência
e uma preferência pelo calor cultivada de sol-a-sol

Trazes no peito um amor alviverde
Enquanto meu melhor sono é sobre o escudo do inimigo
E eu que já oscilei em temperamentos e hormônios
Ando até esquecida do salgado gosto das lágrimas
Porque não é como uma brisa afetada que me tocas
Mas o que me inspiras é uma certa violência de gestos e palavras
Na expectativa abrasadora de tuas idas e vindas

Não sei que aspirações me são lícitas
Se nos diferenciamos na ambição
Da vida eu não sei querer nada que não seja o muito
De ti, meu pecado é sempre querer mais um pouco
Quando estremeço no teu colo o mundo parece ser menos adverso
E é por isso que me entrego ao gosto de que me vires ao avesso
Mas não sem querer te prender a mim numa sutil dominação.



domingo, 7 de novembro de 2010

Veja bem, meu bem...


Eu não me importo de não ser a mulher mais linda dessa cidade, assim como nunca tentei fazer-me resposta sendo a Anaïs Nin que todo Henry Miller procura, pois não quero, nunca quis fazer linhas ou versos que repetissem uma história já contada. Eu quero fazer algo novo, mesmo sabendo que a vida que nos (per)segue é uma sucessão de repetições nas quais aprender ou não é conquista individual. Só que agora não consigo dormir, tenho uma certa culpa por ter deixado você sozinho, além de não me conformar com o silêncio repentino que me acometeu, quando sempre tive certeza de que palavras não me faltariam. Mas elas fugiram, de tão simples revelaram-se difíceis demais, as duas ou três frases morreram em meus lábios, indomáveis, recusaram-se a sair, mesmo sendo tão claro
que eu ficaria, que acredito
e que se me chamasse, eu iria...
mesmo sem saber pra onde.

***

terça-feira, 2 de novembro de 2010

DO ALTO

Ela era mais uma entre tantas meninas. Tinha idade e aspirações que remetiam a uma mulher bem resolvida, mas no fundo se recusava a aceitar a gravidade da visão adulta.

Começou gostando de ler as narrativas, passado o susto inicial até se divertia. Não escrevia assim, mas apreciava a acidez e o despudor. Com as descobertas, passou a concentrar sua atenção noutro gesto: sentada aos seus pés, seria capaz de ficar ouvindo aquelas aventuras por horas, sem deixar de dar palpite aqui e ali. Era uma vida muito diferente, quanto mais ouvia mais tinha certeza de que não vivera nada ainda, ou quase nada, o grande mistério era haver um foco de interesse quando tudo apontava para uma natural dispersão. O que ela tinha de mais, ele tinha de menos.


- Queria ter menos juízo, acho que tudo seria mais fácil...
-E eu queria ter mais. Se pudesse roubava um pouco do teu.



A infantilidade dela trazia o ânimo que a vida pregressa havia furtado dele.
Uma noite não dormiu, tiveram uma longa conversa, produtiva, lírica, onírica e cheia de contrastes, eram como partes dissonantes de uma dialética na qual ambos não queriam chegar ao lugar-comum.
O que teria a oferecer a um amante? Isso ela não sabia, bem como uma infinidade de outras coisas nas quais nunca parou para pensar. Só queria continuar batendo à porta dele e aguardando sua abertura para dizer: "Tenho teorizado demais a vida, estou cansada. Me tira um pouco disso tudo?".
Quando vinha, ele não costumava ser sutil. Por natureza, imprevisível. Enquanto ela ouvia a seus pés, o tom era meio magistral, como se quisesse dar ao seu muito vivido valia de ensinamento. Falava da vida, dos achados artísticos, da sedução dos vinhos e da banalidade dos sentimentos. Era um excêntrico, louco como o anjo que renega seu lugar entre os eleitos para dedicar-se a um deleite profano.



-Cogitar "por quanto tempo" é perda de tempo, meu bem. Eu vou ficar em teus braços o tempo que for.



Respondia puxando-a para si, oferecendo seu colo para depois incitar-lhe o querer beijando a boca. Ela nada dizia. Não resistia nem deixava, se entregava - nisto há uma diferença sutil. Bolinava, dominava numa habilidade que era até cruel, subverter o convencional do amor em tesão é a mais justa das formas de driblar o ócio.
Curiosidade, fingimento ou como quisesse ele chamar, não fazia muita diferença. Tudo nela era sede.

sábado, 23 de outubro de 2010

Aquário



Coitado do caranguejo,
ficou preso no aquário.
Coitado!
Mas não foi sempre assim,
antes
vivia solto.
Mas caranguejo anda de lado e vê o mundo
de outra forma.

Um dia encontrou o aquário.
A luz batendo no vidro
formava desenhos bonitos.
O caranguejo ficou fascinado,
achava tudo tão belo,
achava o aquário seguro.

Fez tanto esforço o bicho,
subiu como pôde e chegou lá no topo.
Coitado,
não vê que não há nada,
é só a luz refletida na caixa de vidro.


"Sai daí caranguejo, volta para a sua vidinha vazia."
- Que sai que nada...
e lá se vai o caranguejo para dentro do aquário.


Coitado do caranguejo, ficou preso de vez no aquário.


De
dentro é tão diferente,
a luz já não incide mais.
Não há nada,
só vazio
e o pobre do caranguejo a se arrastar pelo vidro.

O mundo passa lá fora.
Do aquário se pode ver tudo.
Mas já
não se pode fazer nada.

Caranguejo se você soubesse
como o aquário é solitário.
Deixou-se levar pela Luz,
agora é tarde,
já não dá mais para sair.
Coitado do caranguejo,
ficou preso no aquário.

Agora é morrer de fome.
Agora é morrer de
frio.
Agora é morrer sozinho.



(Walter Prozak*)




*Pseudônimo de um amigo, escritor entusiasta que me permitiu fazer algumas alterações em sua poesia, esse foi o resultado.

Sempre digo que não acredito em horóscopo ou qualquer tipo de previsão, entretanto, ao ler este poema, foi impossível não fazer a associação com algumas características do sentir de uma mulher canceriana, signo que tem como símbolo o caranguejo. :)

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Nota.

Escritor



Vários de meus textos são exercício de metalinguagem, gosto de escrever sobre a escrita: dificuldades, sentimentos e inspirações de quem se arrisca, amadoramente, por esse mundo.
As inquietações já não são as mesmas de quando comecei, as temáticas são variáveis e os pincéis utilizados para representar as coisas desse mundo também mudam constantemente.
As más companhias e os bons livros estão ao alcance de qualquer um, basta encontrá-los.
Quando criança, eu dizia querer ser uma "escritora famosa", hoje troco qualquer fama por uma boa sombra onde possa armar minha rede amarela e seguir com meus rabiscos.
Aprendi com o Jorge Cortás Sader Filho que escritora eu já sou, escritor é todo aquele que escreve, mas ter qualidade técnica e literariedade já são "outros 500"...
Estou correndo atrás.


quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Duas palavras, uma tentativa.


FOLHETIM

Trad. do fr. feuilleton, com alter. suf. (v. -im).]
S. m.
1. Seção literária de um periódico que ocupa, de ordinário, a parte inferior de uma página; gazetilha.
2. Fragmento de romance publicado em um jornal dia a dia, suscitando o interesse do leitor.
3. P. ext. Lus. Novela (3).



Encontrei tal definição no Dicionário Aurélio - Século XXI, quando procurava me assegurar de que a ideia que tivera na noite anterior não era tão absurda. O vivido sempre foi o tema de maior influência em minha produção escrita, juntamente com o sonhado e o desejado.

- Oscar Wilde dizia que "a vida imita a arte muito mais do que a arte imita a vida", não sei se concordo - conversava com um amigo na madrugada.
- Acho que é um ciclo. - respondeu-me, ponderadamente.
- Explica-me melhor, pedi.
- A vida imita arte após a arte ter imitado a vida. Over and over. Again and again.

Deu-me a prova dos nove, mesmo sem saber, afinal de contas, seguir o ciclo não é o que estou fazendo enquanto transcrevo para cá trechos de nossa conversa? Ou quando, antes de cogitar qualquer possibilidade de fazê-lo, joguei a frase do escritor irlandês na roda para uma discussão? Entendi que Vida e Arte se complementam, meu caro, não há sobreposição ou tentativa de separação, a arte não é só um resultado, é o trato do olhar humano sobre todas as coisas, sejam elas belas ou feias, tanto no ficcional quanto no biográfico - puxando pro meu lado, pra Literatura. O motor somos nós que alimentamos.


Dito isto, peço licença e me recolho à luta vã.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Para toda mulher do inferno, um homem sem jeito

Acordava cedo, tinha aula, tinha trabalho, tinha tanta coisa que ao fim do dia nem sabia dizer como tantas horas haviam sido gastas, perdia-me nas grandezas de tempo-espaço. Ele costumava deitar na hora que eu levantava. Sempre achei que dormia pouco, mas ele me superava, dormia bem menos, às vezes pensava que ele simplesmente havia abolido um bom sono de sua rotina.

Na verdade, preferia acreditar que dormir era o que ele fazia enquanto eu me ausentava e que os livros eram sua companhia preferencial. Conversávamos pouco nos últimos dias, eu andava muito ocupada, preocupada, aperreada e ele, arredio. Acordava às cinco da manhã, me arrastava até a cozinha e fazia o café quase de olhos fechados ainda, um café que não era bom, mas servia ao mesmo para despertar o ânimo que me fugia do corpo ainda não recuperado de tanta coisa. Costumava, contudo, chegar atrasada, não só nos lugares, mas na vida como um todo, isso parecia um karma e eu alimentava dúvidas quanto ao merecimento que tinha sobre aquilo tudo que estava a viver.

Em casa, nem parava mais para ouvir as reclamações do homem, para ele nada prestava, nada prestaria no céu, no inferno ou em qualquer coisa que escrevesse. Interessavam-lhe o placar dos jogos, o conhaque que nunca provei e alguns cigarros. Sexo de vez em quando, seus limites já haviam sido excedidos, testados, explicava. Os meus não. Não é que encarasse a vida com olhos de extrema paciência, tampouco ficava por filantropismo. Gostava, por mais que recebesse alguma má-criação ou acusação injusta de lhe encher o saco. Voltava, não alimentando um ciclo, mas por saber que, mesmo com todas as provocações e risos que o faziam comparar-me com uma hiena, poderia fazer a diferença em algo.

Poupava vocabulário, tempo e suposições não falando em "nós" - assunto perigoso, confiava que ele sempre soube, sempre sabe, lendo em minha transparência, sabe das vontades que tenho e tive esta tarde, de deixar de lado a pilha de pratos sujos da cozinha e buscá-lo para um chamego, deitada no sofá, cabeça no encosto e pernas esticadas sobre suas pernas, dando-lhe uma deixa para que me tocasse.

Cada uma teria o homem que merecesse, disse certa vez. Espero que sim. Que assim seja, pois para toda mulher do inferno sempre há de existir um homem sem jeito.

***

sábado, 2 de outubro de 2010

PEQUENA PROSA IDÍLICA

"Quem sou eu para falar de amor
Se de tanto me entregar nunca fui minha..."

(Chico Buarque - Tango de Nancy)


Se alguém fala em amar mais ou amar menos, na verdade deve incomodar-se por não amar. O amor não se presta à dubiedade da quantificação - ou você ama ou não ama. Nunca vi ninguém falar que ama pela metade, assim como nunca soube de um bem-querer que fosse condicional ou de um desejo que pudesse ser representado em porcentagens.

Sentimentos não exigem justificativas, não se dobram às vontades de seus donos (ou vítimas, diriam os pessimistas), não surgem nem morrem nos momentos oportunos - eles são.

Minhas palavras não têm a dureza de quem renega o afeto, mas há muito já se afastam da inocência dos que seguem ideais românticos. Cuida-te em nunca confundir permissão com permissividade, é o único conselho lúcido que esta teimosa aqui pode lhe dar, meu amigo, não há nada mais perigoso do que perder-se de si mesmo, o caminho é sem volta.

Tenho vontades que não escondo e tenho princípios que sigo mais por instinto do que por precaução, mas nem com tudo isso me arrisco numa definição.

- Sobre o amor, eu nada sei.

Respondi com certo desdém, gesticulando. Meus dedos afrouxaram-se, deixaram escapar qualquer abstração que seguiu ao encontro da fumaça que, liberta do seu cigarro, manchava o ar de um fim de noite quente - a única certeza que eu tinha era a de que nunca seria fácil.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Casca


O som estava ligado, eu me deixara ficar jogada na poltrona listrada, presente da madrinha que considero de extremo mau gosto, mas deixo lá, pelo menos serve. Afinal, é tanta coisa mais inútil que vou acumulando nessa vida. Escrevi um poema, ando até me divertindo com isso, não há talento aqui - a frase já é quase instintiva e se junta com a minha mania de bater a caneta no papel recém-rabiscado durante a leitura. Releio. Rio das minhas bobagens, incessante.
Dois dias em João Pessoa não me serviram para nada, nem cansaço eu sinto. Passa da meia noite, sei que se não dormir antes disso, já era. Talvez devesse tentar alguma coisa para mover esse tédio, afastar a frieza. Talvez, mas nem me mexo. Parece que, mesmo sem sono, um esgotamento me domina. Talvez seja o peso dos compromissos em quem precisa fazer artigo e dossiê literário essa semana. Quem precisa de férias, afinal? Não reclame, é o preço das escolhas, vai ser sempre assim - a consciência me cala, era a sua voz que ecoava em mim, vinda não sei de onde.
“Ninguém perderia tanto tempo pensando quando poderia estar dormindo.”
Quanto mais você quer se diferenciar dos outros, mais tende a comparar-se a eles. As armadilhas são muitas e seu engodo é proporcional à parte de orgulho que lhe cabe na mesa posta.
Por fim, você se vê cansado de filosofar, mas inteligente o suficiente para não se render às alienações da televisão. Termina jogado num sofá em pleno domingo, não distinguindo muito bem as coisas que ouve, mas mantendo a pose. Casca impassível.
Maldito telefone que não toca.

sábado, 25 de setembro de 2010

Esparsos

"Estou com você"
lhe repetiria todas as vezes
todas as noites
quando preciso
mesmo que não convencesse.
E eu estava com ele
muito mais ainda em sonhos
em vontades
e nos problemas alheios
que passam todo dia
e a gente nem vê
ou ignora.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Plagiada, quem diria.


Imagine a seguinte situação: você vive momentos de ternura e empolgação com uma pessoa - admiração, carinho e tesão incontestáveis - e, conhecendo o apreço do outro pela escrita, resolve dedicar-lhe um escrito, um conto, mais precisamente. No referido texto, expõe cada um dos seus desejos, dos seus sentimentos e de suas recordações, coisas íntimas, detalhes recuperáveis na cumplicidade dos dois. Concluída a escrita, mostrada a homenagem, contenta-se muito com a boa repercussão do seu trabalho, com os elogios e com a contribuição que a produção certamente dará à relação com o outro. Uma maravilha. Coisa de nem você, o próprio autor, deixar de admirar e se excitar a cada nova leitura, pelo tanto de si que colocou ali.
(...)
Passam-se alguns meses, quase um ano e, de repente, clicando em um link qualquer entre os infindáveis que lhe aparecem diariamente nessa loucura que é a vida "online", você chega a um blog destinado à publicação de contos eróticos, provavelmente de uma conhecida. Estranhamente, desde o início da leitura algo lhe soa familiar... Não precisa nem concluir para ter certeza de que aquele é o seu texto, com algumas alterações de nomes de personagens e espaço, mas as palavras, as expressões, os gestos descritos... está tudo ali!
-Eu me reconheceria em qualquer lugar!

Foi o que me aconteceu. Escrevo agora tomada por uma raiva sem precedentes. Não sei muito bem como proceder, mas deixei um comentário na postagem exigindo a retirada do conto. Nunca me preocupei com essas coisas, sempre tive consciência da abrangência de qualquer coisa postada na rede, mas, como disse em recado à "autora", se fosse outro texto eu até deixaria passar, mas esse não! Ele tem nome, sobrenome, inspiração e assinatura próprias, por isso não entendo, não concordo e não aceitarei tal apropriação.



Aline Patricia
23/09/2010

sábado, 18 de setembro de 2010

O homem que quero pra mim

(Com toda a utopia que a licença poética pode me permitir)



Não é o mais bonito, o mais simpático nem o mais correto, mas certamente me fará rir, ao mesmo tempo em que rirá da minha falta de jeito na cozinha e da minha incapacidade de esconder a ternura que sinto.

Não mudarei, por ele, minhas cores, meus hábitos ou meu tom. Não se escolhe de quem gostar, mas há a possibilidade de optar pela permanência (ou não). Estou completa como sou e se o quero não é para complemento. É, pois, escolha, afinidade, cisma, loucura (?)... cada um chama como quer.

Nas noites que considero tão frias, sei que ele se enlaçará em meu corpo, trazendo o calor que tanto aprecio. Deitados na rede, de lado, uma coberta por cima e um balanço suave serão suficientes para dar vida longa ao meu fetiche. Conhecerá meu gosto pelo beijo desapressado, pelo sexo na madrugada, ensaio do matinal que só aceito se for bem feito, se for de fazer perder as horas.

Por ele, não precisarei me preocupar em esconder as marcas das preocupações cotidianas ou dos excessos noturnos aos quais me permitirei em sua companhia, me verá bonita de cara limpa, entenderá até as imperfeições como detalhes tão meus... Fará de mim, então, uma perfeita sem-vergonha que se apresenta despida de roupas e inseguranças.

Por ser tão natural minha entrega, não me desgastarei em cobranças, saberá que estou com ele por opção e que as vivências de cama, mesa e banho me são suficientes. Intenso, nosso diálogo será de espírito, limitado que é em meu corpo. O abraço ao infinito virá da alma doce e selvagem que me incita, expressa no silêncio entrecortado por minhas súplicas mais profanas.

Quando partir para a minha leitura, verá que nunca escrevi nem escreverei visando convencê-lo de qualquer coisa. Recuso-me a pleitear qualquer conquista lexical, que as palavras se entendam com as palavras, que permaneçam assim como nossos livros na estante, despojados.

Desejarei que sua permanência em mim se faça plena, independente de tempo ou qualquer outro relativismo. Que meu amor seja, então, convertido em mil: mil vezes olhos, boca, mãos e sexo, num consumo incessante da sensualidade que faz aflorar em mim.


***

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Apurado da Vida


"Descobri que sou forte sim,
mas minha resistência se funda
no mesmo lugar em que se finda:
alma libertina que insiste em sonhar."


quinta-feira, 29 de julho de 2010

Pausa para o café


Se sirva, meu bem.
Quero também que me sirvas
além de um banal amor confesso
e que te sirvas de mim
sorvendo em pequenos goles
ainda quente.
Então eu vou te roubar
tudo de mais preciso e pontual
teus ósculos e teu afeto
teus óculos e tua cerveja
entre uma ida e outra à cama
como num diálogo de todos os dias.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

60 ANOS DE FORRÓ - uma prosa sobre o "Seu Lua": forró, cultura e outras impressões.

Um texto que surge sem planejamento algum, apenas da minha vontade de trazer à cena uma data tão importante culturalmente, mas que não tem a atenção que merece.



Dia 20 de Julho de 1950, Luiz Gonzaga grava a música Forró do Mané Vito, uma entre as tantas composições que surgiram de sua parceria com Zé Dantas - compositor, poeta, folclorista e amigo do Rei do Baião. Com o lançamento deste disco, o Forró começou a se espalhar pelo Brasil, quebrando o estigma social que existia para com o ritmo, antes visto como ordinário devido ao seu apelo mais voltado para o popular.

Nessa hora, prefiro deixar de lado a narradora de fatos históricos para pôr em cena a Aline pessoa mesmo, uma vez que o que me move a escrever sobre esta data são as minhas vivências como nordestina, forrozeira assumida e filha de sanfoneiro.
Não posso falar com o conhecimento de causa de um especialista em música ou historiador, mas posso trazer em depoimento a admiração que adquiri pela figura do "Seu Lua", voz peculiar que povoa as lembranças de minha infância, ouvindo atentamente as incursões musicais de meu pai, desde o solo de sanfona mais autêntico até a irreverência talentosa do Raul Seixas, discos demais para minha infantil capacidade de contar. Tudo ele trazia em seu repertório, traz até hoje, justificando sempre que para ser bom em algo, você precisa primeiro conhecer as contribuições dos bons nessa área. Isso eu aprendi bem.

Só quando cresci que vim a conhecer a trajetória heróica do Gonzagão, mas desde a infância somos apresentados a ele, mesmo sem saber, Asa Branca, o dito hino do Nordeste, inevitavelmente vai figurar em algum momento da vida escolar da criança nordestina. Não sei no resto do Brasil, mas por aqui é assim. Quando adolescente, coisa de 15/16 anos, me liguei bem mais à cultura importada, elo não só de vontades, mas também de consumo, agradeço por ter sido apenas uma fase. Não me fecho para o novo, sou curiosa, ouço, leio, devoro mesmo o que as outras culturas têm de bom a oferecer, como numa "antropofagia" moderna, acho que só assim o homem pode enxergar mais além.

O que me causa não só admiração, mas também tristeza, é ver que do conhecimento da autêntica tradição que é o forró para o reconhecimento de sua importância, há ainda um abismo muito grande. As crianças conhecem, como eu disse, o contato é inevitável, mas talvez falte mais estímulo às novas gerações, ou talvez o mundo esteja tão de "pernas pro ar" que os interesses individuais se sobrepujem à valorização daquilo que constitui uma identidade nacional, regional, local ou simplesmente humana.

Enfim, não foi para falar de insatisfações que eu quis escrever, mas para trazer a lembrança do Seu Lua, homem determinado que, mesmo desacreditado pela maioria, conseguiu construir uma brilhante carreira nas terras do "sul", sem nunca tirar os pés do chão nem o coração de sua cidade Exu (PE). Até hoje me fascina ouvir minha mãe contar dos "bailes" que agitaram sua solteirice, do charme e da habilidade de meu pai nessas festas, ousado nos 60 baixos de sua Sonelli vermelha desde a mocidade. Dá uma vontade danada de viver em outros tempos, de sair dessa órbita por um momento, vestir aquela saia de chita e arrastar o pé nos salões de minha cidade natal, aquela na qual nasci, mas nunca vivi de verdade.



[Aline Patricia - 20/07/2010 - 03:30]






"Meu nome é Luiz Gonzaga, não sei se sou fraco ou forte, só sei que graças a Deus té pra nascê tive sorte, apôs nasci im Pernambuco, o famoso Leão do Norte.

Nas terras do novo Exu, da Fazenda Caiçara, im novecentos e doze, viu o mundo minha cara.

Dia de Santa Luzia, purisso é qui sô Luiz, no mês qui Cristo nasceu, purisso é que sô feliz."



(Luiz Gonzaga - 1912-1989)












...e um Feliz Dia do Forró! :)

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Façamos



Sentia agora a ilusão de que era a última mulher dele. Não tinha muita coisa a oferecer, ele também não tinha, acho que isso era algo que fechava o pacto silencioso de entrega que havia entre a gente. Uma história nada convencional, nossos caminhos jamais se deram à facilidade de seguir linearmente. Conhecidos de tempos já, continuava fugindo dele, desviando olhares, fingindo desentendimento de intenções e essas coisas - "eu nunca fui boba, não assim" - dizia agora enquanto descansava após o tesão consumado e consumido.

As coisas e as pessoas realmente exigem uma adaptação por parte da gente. E assim foi feito. Jamais vou perder a forma doce de olhar para ele, de sentí-lo, mas vamos pontuar uma coisa: eu posso ser aquilo que lhe é merecido (ou não), posso vir em sutis modos para ofertar meu carinho, minha acolhida e qualquer outro investimento de tom metafísico ou simplesmente fazer como agora, chegar cansada do trabalho, despir-me pela casa, deixando pelo caminho não só bolsa, sapatos e outras peças, mas também qualquer apego d'alma que porventura possa me desviar o foco. O que mais desejo, então, é que me espere na cama, ou melhor, quero que me encontre lá à sua espera e que não me dê oportunidade de fuga. Façamos.