domingo, 3 de janeiro de 2010

Banhando a alma

Desde cedo, trovões e relâmpagos no céu, - "anúncio de que a chuva está próxima" - assim sempre comentava meu pai. Despertei na madrugada com o barulho da chuva... "Veio muito bem a calhar", os últimos dias foram quentes, as noites abafadas, agora estava fresco, para os habituados com o calor, poderia dizer que estava frio. Tempo bom para afundar entre os lençóis, ver um filme talvez, partilhar um aconchego. Levantei-me e caminhei pela casa escura, relâmpagos iluminavam um canto e outro, um dia já temi muito estes fenômenos, hoje não mais. De certa forma via beleza naquilo tudo, nos sons, no clarão súbito, no barulho das gotas d'agua golpeando repetidamente o telhado. A vontade que eu tinha era de sair, de despir-me das roupas de dormir e banhar-me naquela chuva, "devo estar ficando louca", por um momento duvidei.
Lembrei-me de quando criança, as farras que fazia, acompanhada de meus irmãos, sempre que chovia e meus pais não estavam em casa. Uma prima adolescente morava conosco, a tínhamos como cúmplice, pois a mãe sempre censurava qualquer menção nossa de ir brincar lá fora quando o céu estava carregado. Nesses dias era aquela fastiação de ficar no alpendre, olhos entediados vendo a chuva cair, sem o menor ânimo para qualquer brincadeira. A despeito disso, tínhamos nossa alforria quando eles não estavam em casa, a prima cuidava em nos vestir com roupas de banho, então corríamos livres por todo o sítio, só sorrisos. Até que de longe, na estrada, vislumbrássemos a figura dos coronéis, aí era um corre-corre só, ir para casa e trocar de roupa a tempo de recebê-los como anjinhos recém-saídos do banho. Decerto sabiam de nossas aventuras, mas talvez não quisessem estragar aquela felicidade clandestina, ou ainda talvez os agradasse a idéia de que, independente da vontade, na frente deles nos contínhamos. "Boas lembranças" - quando retornei da minha nostalgia estava parada em frente à janela. Não sei o porquê de lembrar disso agora, depois de tanto tempo, mas tal recordação me trouxe mais certeza de que é nas pequenas coisas que nos realizamos. Logo amanheceria, decidi voltar para a cama. Quanto à vontade, essa não passou, até agora.

2 comentários:

Tempestade disse...

No seu relato me vi com os mesmos sentimentos.
Beijos!

Manelchen disse...

"A vontade que eu tinha era de sair, de despir-me das roupas de dormir e banhar-me naquela chuva"
Que delícia!
kkk!
Muito bom.