sábado, 30 de janeiro de 2010

Caos


Há dias em que decididamente não se está bem, e nesses dias quer-se tudo, menos escrever.

O clima em sua casa não estava nada bom, na verdade nunca o fora, só que agora era mais que evidente. Tudo começou num domingo, a frase parecia-lhe tão inocente: "Vou sair com a prima..."

"Ah não vai não!"

Reclamações, protestos, revolta, puritanismo.. desistiu, voltou para seu quarto, desarrumou-se, estava mesmo puta da vida. Jogou-se na cama, voltou para sua leitura, "O Encontro Marcado" do Fernando Sabino, era um bom livro, mas no momento não tinha a menor vontade de ler, tentava prender-se ali na esperança de esquecer, esquecer sua raiva, sua frustração e sua vergonha, vergonha de sentir-se tão mal ali e continuar, ainda era impotente contra aquela situação.

Não quis ver ninguém, não quis falar com ninguém, recusou as justificativas da mãe, mandou a irmã ir ao inferno, no entanto não se sentiu melhor com isso, precisava estudar Linguística, precisava ficar lúcida, mas preocupava-se demais com os amigos, entristecia-se demais com a situação de outro alguém, como se sua vida como um todo já não fosse demais deprimente.

Por esses dias leu produções dos amigos, pensou que talvez nunca mais escrevesse, não tinha idéias, apenas pensamentos que surgiam em profusão na madrugada, e estes não eram nem um pouco bons, diga-se de passagem. Lia o Felipe com seus poemas bem trabalhados, Jorge em sua escrita atual e elegante, Esther com seu canto que transbordava lirismo e o Téo insano, louco e santo... eles eram sensíveis, aparentavam facilidade como se tivessem nascido para aquilo, eram artistas. Já ela, o que seria?

Pediu uma cerveja no balcão, às vistas de todos, "que caia por terra a imagem de boa menininha. eu nunca fui uma mesmo, posso rir e dizer que enganei a todos", os de casa olhavam-a desconfiados por estes dias, e ela só queria que os dias de trabalho voltassem logo, para poder refugiar-se com seus livros, com seus estudos longe dali, era o melhor a fazer, "minha casa não é lugar pra mim" - irônica conclusão, a vida lhe ria na cara, mostrava que não era fácil ter vinte anos, por mais que se julgasse bem-sucedida em contraste com os demais de sua idade.

E assim ficou por alguns dias, escreveu dois ou três poemas sem importância, conversou com alguns poucos nos quais confiava, bebeu e chorou sozinha sua inquietação, duas noites sem dormir e tinha ainda um conto para terminar, promessa é dívida, não sabia se amava ou se odiava, sabia que o sentia em si, e que desvencilhar-se era quase impossível. Voltava ao conto várias vezes, não tinha a menor inspiração, reescrevia várias vezes, as cenas vinham à sua cabeça praticamente inteiras, mas na frente da fria tela do computador empacava. Maldizia a tudo, fechava tudo e dedicava-se a fazer nada, nada, nada... e assim seguiu. Quando conseguiu dormir sonhou com uma traição, mas a traição de si mesma, sua imagem no espelho perguntava até quando prolongaria aquilo, tinha que eliminar as pessoas que a faziam mal, talvez ainda pudesse resgatar o carinho daquelas das quais se afastou, sentia falta.

Acordou melhor, exceto pela aparência, não gostou nada do rosto que encarou-a no espelho, mas isso logo passaria. Foi ao salão, fez as unhas, gostava de tê-las vermelhas, forte e instigante. Na noite seguinte estava mais calma, restava o conto, nunca havia demorado-se tanto em algo, deveria estar fora de forma para a escrita, se é que isso existia. Supreendeu-se, terminou-o em alguns minutos, faltava apenas mostrá-lo, mas isso ficaria para o outro dia, dormiu, como um anjinho, se Deus permitir a comparação. Ao meio dia do sábado levantou da cama com a ânsia habitual de escrever - "minha amiga voltou"- recebeu os afagos de um dos raros, a vida continua.

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