sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Em apenas algumas páginas



Hoje escrevi quatro páginas em minha velha agenda, mais por fuga do que por qualquer coisa, talvez também valha o exercício. Terminado, no momento, observei aquele emaranhado de rabiscos, era provável que na tentativa de digitá-los nem entendesse minha própria letra. Onde estaria agora a serventia dos velhos cadernos de caligrafia? O fato é que via diante de mim mais algumas páginas inúteis, passada a euforia com que me atirara à atividade produtiva, eram inúteis, como sempre. Correções eram necessárias, sempre o eram se quisesse publicar em algum lugar, assumi o compromisso comigo mesma de ofertar aos meus eventuais leitores algo pelo menos apresentável.
Nem sabia ainda se mantinha o texto em primeira ou em terceira pessoa, como me habituara a escrever ultimamente, esses ajustes do “pensar o texto” sempre foram o detalhe a mais, o que mais me absorve o tempo em reflexões e releituras quase infindáveis. Se a escrita é mesmo um desnudamento, como tanto defendi em debates e exercício literário e crítico com colegas, então esta era a minha prova de fogo. Ninguém nunca disse que era fácil falar de si. Talvez a terceira pessoa me desse mais segurança, como se usando-a não me expusesse tanto, criava hipóteses. Grande engodo. Estava ali e isso era notório, era o que ouvia por aí, minha presença saltava aos olhos, eu me refletia naquelas linhas, nas mal traçadas e nas ousadas, em delicadezas ou na dureza superficial, vista dos que me julgam insensível. Ao relê-los me analisava, eram atitudes e pensamentos que, tão logo passados, desconhecia, no entanto tudo continuava sendo inútil, independente de qualquer consideração ou consciência. Nada mudaria.
Escrever é uma arte, sem dúvida, e nela incide toda a minha aventura. A terceira pessoa nada mais é do que um recurso estilístico. Agora partia para uma ponderação mais técnica e neutra, já também transitava entre os literatos, tomava conhecimento de teoria(s) e a contragosto inferia que quanto mais me libertava, me fazia expressão do humano que sente, vive, sonha, mais me fazia distante dos manuais. Lembrei das aulas da Abbott: “máscaras do autor”, e ainda da questão da autoria levantada nos estudos Bakhtinianos: tudo era estética, truque, expedientes admiráveis de um artista, representações criadas na escrita e na vida.

Ressenti-me de minha aparente isenção de juízos na escrita, de não ter um compromisso, uma meta maior, algo traçado, objetivos claros, pautas, foco. De tantas vezes que me pego em frente a um papel em branco, ávida por dar meu tom, meu toque àquelas palavras tão repetidas que em minha cadência se fariam únicas. Originalidade é mesmo das virtudes mais apreciáveis. Tudo o que escrevo, escrevi, arrisco, nasce das cismas mais naturais, mais impróprias e pessoais que desconfio muito se ocorrem com todos. É algo de que preciso. Pessoalidade, sentimentalismo, centramento no EU, expressão do EU, subjetividade alguns dias à flor da pele, transbordante, necessária e definidora de uma mulher, de uma menina sonhadora, de uma escritora?
Conclui por fim, estranhamente, que a aproximação que muitos teorizam, planejam e constroem para mim se dá sem nenhum mistério, meu compromisso é comigo mesma, sem intrusos, em mim residem todos os eus possíveis e até os impossíveis, afinal, em Literatura, jogar com o irrealizável é a maior de todas as proezas.


Um comentário:

Jorge Sader Filho disse...

Repito aqui o que afirmei no Mural dos Escritores. Aline Patricia despontou como uma nova estrela nos céus da nossa literatura.

Meu respeito e beijo, Pati.



Quanto ao vestibulando, você acertou em cheio.