domingo, 24 de janeiro de 2010

Nosso Causo



O ano era 2008. Fim de tarde nebulosa, despedi-me dos amigos, estava na minha hora. Teria que andar bastante até o ponto de ônibus, não fosse a gentil oferta de um amigo mais gentil ainda. Nisso não enxerguei nenhuma maldade, mas os amigos (ah! sempre eles) já nos olharam de forma diferente, como se com a carona estivéssemos fadados a uma aproximação corporal. O trajeto até o ponto de ônibus foi percorrido em pouquíssimo tempo, eu estava quieta, o frio dentro do carro quase que insuportável. No caminho, não pude deixar de pensar no quão maliciosos eram os colegas, eu também andava solteira por aqueles dias, meu amigo era um moreno bastante bonito, mas para quem nunca tive nenhum olhar de interesse além da amizade.
Sempre gostei de morenos.
"Chegamos." - livrou-se do cinto de segurança para ajudar-me com alguns pertences, logo nos encaramos, acho que até hoje não sabemos explicar o que se passava em nossas cabeças naquele momento... Senti que se aproximava, senti o toque de suas mãos em meus cabelos, por algum tempo hesitei, mas logo pensei: "Porque não?" - Entreguei-me ao momento, aceitei seu convite, ofertei minha boca. Não foi um beijo longo, muito menos intenso (hoje posso dizer isso sem medo), os lábios dele eram quentes, mas eu me sentia uma pedra de gelo, na verdade não senti nada, nunca havia tido em minha vida beijo mais desinteressante!
Afastamo-nos, abaixei a cabeça, fiz gesto de abrir a porta do carro, no que ele perguntou, extremamente sem jeito: "Que foi? Não gostou?" - Minha resposta veio mais sem jeito ainda: "Nem um pouco." Ora, quem me conhece sabe que não sou muito sutil, este é um dos meus defeitos mais graves. Sua fisionomia pareceu aliviar-se, então confessou: "Eu também não! Que coisa mais estranha!". - Logo a tensão daquele momento se dissipou, meu amigo saiu do carro, foi ao outro lado me abrir a porta, "sempre gentil", foi o que pensei, tentou desculpar-se pelo impulso, algo dizia que ele precisava fazer aquilo e que agora, estranhamente, estava com a consciência mais leve. Eu, bem mais tranquila com a situação, disse-lhe que aquilo havia sido bobagem de amigos, uma dentre as várias coisas das quais iríamos rir juntos daqui a muitos anos.*
Perguntei-lhe as horas, arrumei minhas coisas e despedi-me, já anoitecia. Afastava-me quando o ouvi chamar: "Aline!" - Parei e virei-me em sua direção: "Nunca tive amiga mais linda que você!" - Sorri, agora mais que sem jeito, e como não tive nenhuma idéia de resposta, segui em frente. Atrás de mim deixava uma das pessoas mais especiais que já conheci e o momento que rendeu uma das lições mais importantes que a vida já me deu, mas que só mais tarde eu viria a compreender.






*ps. Não só de rir comigo daqui a muitos anos, mas também de encher-se de alegria ao receber meu telefonema às sete da manhã, avisando: meu rei, você vai virar crônica!



Essas coisas de homem e mulher são mesmo complicadas, estou aprendendo a cada dia.

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