sábado, 13 de fevereiro de 2010

Cúmplice

Sentada na cama, rabiscava um dos vários cadernos de rascunho, tentando desenvolver um ensaio sobre a amizade entre homem e mulher - pelo visto aquele seria dos "partos" mais difíceis - ele ao lado. Sentia que me olhava, absorto, mas a preocupação com a produção nem me deixava tempo para mostrar incômodo ou algo do tipo.
-E você, acredita?
-Hum?
-Nisso de amizade entre homem e mulher que estou escrevendo, o que acha?

Com olhos mais interessados, afastou alguns livros, sentou-se mais perto.
- Eu acho que nada entre homem e mulher se mantém se não houver interesse, pelo menos de uma das partes. Pode ser, sim, que a aproximação comece desinteressada, mas o natural do homem, dos hormônios, é que algum interesse surja com o tempo.

-Uh! Belo ponto de vista.

- Acho mais também. Acho que deveria deixar esses cadernos de lado, depois você escreve, aproveita que estou aqui, venha cá, venha!

Puxou-me pra si, afastou os cabelos que caíam sobre meu rosto, beijou-me, era mesmo um menino muito bom, dos melhores, eu diria. O deslizar das mãos em minhas costas causava arrepio sem igual, prudência nunca era demais, não neste caso. Afastei-o, contendo todas as suas mil mãos.

-Inspirou?

-Ô... Agora me deixa trabalhar, benzinho, deixa!

-À vontade senhorita, estou quieto...

Escrevi, escrevi, escrevi, parei. Sacudi a cabeça - mania incurável (como se com esse gesto pudesse me livrar dos pensamentos que julgo inúteis) - risquei tudo, amassei a folha, joguei de lado.

-Juro que às vezes tenho medo de você.

-Nem precisa. O problema é que nada presta.

-Não seja boba, não entendo nada disso, mas acredito em você acima de tudo.

-Muito animador.

-É que sou suspeito pra falar - riu - se eu pudesse fazer algo pra te ajudar...
Levantei, espreguiçei-me, fui até o computador - uma música faria muito bem - abri mais as janelas, o calor estava insuportável nos último dias, com nós dois ali no quarto então, fervia.

-Sabe, você é um bom menino, quase um anjinho, tão prestativo...

Sentei em seu colo, gostava muito do perfume dele, reparei na correntinha que trazia no pescoço, um pingente com a letra "P", segurei-o.

-Paulo...

-Pode ser de Patricia, se você quiser.

-Adoro esse seu bom humor, bebê! Você é um bom menino, quase um anjinho, tão prestativo...

-E você é deliciosa, em todos os sentidos, menina que não me deixa ser anjo!

Gostava de beijar o moreno, ele era doce e era quente, calmo, entregue. Apesar de tudo não era insolente, nem eu queria que o fosse, isso combinaria com outros, não com ele. Sempre vi atrativos diferentes em vários homens diferentes, com alguns me envolvi, com outros jamais passei do platonismo, há, ainda, os almejados - para estes, espero apenas uma oportunidade - cada um com seu jeito, seus gestos, seus gostos... Nunca me recriminei por isso, será que deveria?

- Lindo...

-Tá, já sei. Precisa voltar a trabalhar, né?

-Não. Vamos sair.

-Pra onde?

-Dar uma volta por aí.

- Ok. E o trabalho?

-Fica para depois, não vou forçar a barra não, escrever não deve ser uma tortura. Vamos, meu bem, vamos ver o céu, com sorte o encontraremos estrelado.

"Há tanta vida lá fora/Aqui dentro sempre/Como uma onda no mar..."

Cantalorei empolgada, estendi-lhe a mão, simploriamente. Apagada a luz, fechada a porta, saímos de mãos dadas. Éramos cúmplices, ao menos por aquela noite.


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