segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Maturescências literárias


"...garanto que se eu não escrever o que eu sinto eu acabo me enterrando..."




A poetisa Rosana resumiu muito bem a essência de tudo nesta frase, do todo em que consiste nossa luta com as palavras, que muitas vezes parece vã, mas sem a qual não seríamos nós, essa visão de mundo peculiar é realmente coisa de poeta, minha amiga.

Sempre dividi minha vida em dois pólos: pessoal/profissional, o destino tem sido tão palhaço comigo que nunca tive, até hoje, nenhum momento de satisfação plena, em ambos os aspectos. Há quem diga que Deus escreve certo por linhas tortas, há muitas coisas que não entendo, para algumas já cansei de procurar uma resposta, para outras mostro meu lado mais teimoso.

Quando estava aparentemente feliz, em meu estado de graça e paixão permanente, não escrevia, tinha minhas inúmeras cartas de amor - ridículas, como disse o poeta -, mas nenhuma vontade de dedicar algumas horas a produzir algo com o afinco que faço hoje. Talvez a perfeição e a estabilidade do sentimento humano não constituam objeto de interesse artístico, uma vez que não propiciam a contestação, o descontentamento necessário ao espírito para que o poeta possa inflar seu peito, cantar suas dores, fazer suas digressões sobre a loucura do mundo, mesmo que o acusem de fazer filosofia de botequim.

Não só na militância pessoal deve consistir o trabalho de um bom literato - ou de um atrevido(a), como eu -, mas vejo de forma indissoluta o papel da arte na sociedade - um salve para as mentes verdadeiramente pensantes, estas que não temem julgamentos ou represálias, que encaram a vida e a sua expressão de cara limpa, sem disfarces e sem jogo de interesses.

É madrugada, enquanto todos dormem eu discuto Literatura, contesto valores, flerto com meus amigos e lhes escrevo poemetos, estou cada vez menos convencional, e se querem saber os que me julgam, há um entusiamo que me salta da alma, que me faz brilhar os olhos, que me instiga e faz perder o sono, perturbador, belo e inspirador... salve a poesia! Sei que alguns adorariam ver-me assim, meus poetas, irmãos de alma e arte, a vida é uma só, única também é a Literatura - representação legítima da vida e das experiências humanas -, e que nela não se possa admirar apenas o homem belo e utópico, cantado em versos que primam pela perfeição formal (tirânica), mas, para despeito da intelectualidade burguesa, que se faça revolução.

Alguns dizem que serei uma grande escritora - nisso minha alma se envaidece, o espirito retorna à tenra infância, quando minha mãe dizia que esperava que eu deixasse dessa coisa de querer ser escritora quando crescesse - há ainda alguns que dizem que já sou uma grande escritora, nesta certeza não confio muito, por me ver tão incompleta, numa escrita cheia de imperfeições, amadora, às vezes minha consciência autocrítica é algoz. O que fazer? Beber um copo de vinho (ou mais, se necessário) e relaxar. Estou aprendendo, as más companhias e os bons livros sempre me atraíram mais do que a mediocridade que nos oferecem na bandeja. Acho que as provocações do Mestre Medeiros - professor de Teoria da Literatura - finalmente surtiram efeito, recordo do quanto quebrei a cabeça para entender e explicar a Teoria do poeta sórdido, tão simples e tão militária, nos versos de Manuel Bandeira, hoje entendo o porquê da nota 7,0 que tanto relutei em aceitar, a boa poesia não se sujeita a essa redução, pois traz em si uma diversidade de representações e sentimentos que é inesgotável.

Reflexões literárias e pessoalidades à parte, o dia logo amanhecerá, os meus bons ja partiram e necessito encerrar, ao menos por hora, esta crônica-manifesto, missão difícil - quase impossível, eu diria - para quem sempre encontra algo a mais a dizer. Já que recordei-me do poema, reli-o e comentei, nada mais justo que trazer, por fim, um convite à sua leitura.
Que todos aceitemos: da vida ninguém saí incontaminado.






NOVA POÉTICA

Vou lançar a teoria do poeta sórdido.
Poeta sórdido:
Aquele em cuja poesia há a marca suja da vida.
Vai um sujeito,
Saí um sujeito de casa com a roupa de brim branco muito bem engomada, e na primeira esquina passa um caminhão, salpica-lhe o paletó ou a calça de uma nódoa de lama:
É a vida

O poema deve ser como a nódoa no brim:
Fazer o leitor satisfeito de si dar o desespero.

Sei que a poesia é também orvalho.
Mas este fica para as menininhas, as estrelas alfas, as virgens cem por cento e as amadas que envelheceram sem maldade.


(Manuel Bandeira - 1949)


Um comentário:

Sanzinha disse...

Oi, Aline!
É, isso de escrever é uma COISA! rsrs
Eu escrevo sem pretensão alguma. Escrevo pra mim, apenas pra satisfazer o desejo de botar tudo pra fora de alguma maneira.

Muito obrigada pela visita!
Não percamos o contato. ;)

Beijos e ótima semana!