sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Coisas de Tia


"Tia, a senhora é a professora mais bonita do mundo, quando eu crescer, posso namorar com a senhora?"


Olhei com surpresa para aqueles olhos questionadores, esses eram os meus pequenos, cheios de dúvidas, inquietações, sonhos e uma vontade de provar o mundo, como se este fosse o novo sabor da sorveteria da esquina. Verdade que nem sempre eu estava preparada para dar respostas satisfatórias, nem segura de que o faria da melhor forma, as crianças de hoje estão cada vez mais sagazes, mais curiosas e espertas, lembro de quantas e quantas vezes arregalei os olhos com suas afirmações acerca do namoro e das relações humanas, sim, eles já entendiam, e às vezes pareciam bem mais aptos a resolver seus conflitos do que nós, os ditos adultos, ouvi certa vez de um loirinho, do alto dos seus oito anos: "É, esse é o problema de viver em sociedade".
Qualquer dúvida era motivo para interromper a explanação do assunto, era Deus, era a família, os problemas de escola ou as paixõezinhas que começavam a despontar - tudo era precoce - e eu ria, me surpreendia, sabia que tentar fugir não adiantava, eles cobrariam nas próximas aulas, os pais não os ouviam, jogavam, para tudo, a justificativa de sempre: "é errado por que é errado, se eu estou dizendo que é, então é!". No fim das contas eu me desdobrava em mil, mil braços, mil ouvidos e mil corações, para eles eu li Monteiro Lobato, cantei as músicas que aprendi na escola, ensinei as brincadeiras de minha época, tudo eles estranhavam de cara, para depois se renderem à farra - crianças sempre serão crianças, em qualquer época, em qualquer lugar - e eu também me fazia uma.
Nas aulas de Literatura Infanto-Juvenil não aprendi apenas teoria e boas indicações de livros, compreendi também a riqueza do olhar infante, a necessidade de alimentar-lhes a alma, pois eles vêem o mundo sob outra ótica, são capazes de ver brinquedos em objetos por nós ignorados, de encarar o mundo como uma novidade a cada dia, de se encantar com um pequeno gesto ou até com uma formiga que encontram no meio do caminho. Na literatura nacional, o poeta José Paulo Paes nos traz a aproximação da infância com a poesia, talvez esta sensibilidade que perdemos em algum lugar na transição para a vida adulta seja o diferencial; nos poetas ela permanece, atinge novos anseios, desconhece limites.
Confesso que escrevo motivada já por um saudosismo, é quando os encontro na rua, geralmente na volta do trabalho, que percebo que o tempo passa para todos, como li outro dia de um amigo: isso às vezes é assustador. Já não trazem as mesmas dúvidas, ostentam uma certa razão de si e em mim não buscam mais conselhos, restaram apenas os abraços e algum que de vez em quando ainda me chame de "tia" e seja repreendido por um adulto - "deixa, eu sempre serei a tia deles...".

Felizmente algumas coisas e pessoas sempre permanecem em nós.


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