quarta-feira, 28 de abril de 2010

Literata!

-Eu sou literata!
O menininho olhou sem entender nada do que a coleguinha acabara de dizer enquanto balançava as pequenas tranças com inquietude.
-O quê?
-Eu vou ser uma literata. Não. Eu já sou.
-Hein?
Era um atrevimento, uma convicção que beirava a ousadia e a fazia repetir, sem titubear, a quem lhe desse conversa, do alto dos seus quase oito anos. Em casa, a mãe não entendia, mas também não se preocupava, diferente do pai, que reclamava toda vez que a menina o dizia:
- Mas que diabos é "literata"?
-Eu não sei.
-Onde essa menina tá aprendendo essas coisas?
-Não sei! Deve ser na escola, cisma de criança, deve ter achado a palavra bonita, ora. Logo passa.
-Mulher, mulher...
Resmungava mais um pouco, tomava seu suco em longos goles e saía da mesa. Na sala, em frente à televisão, consumia todo o resto de sua noite.
A menina continuava a mesma em sua impavidez, preferia ficar em casa à estar na rua, preferia ficar sozinha à estar naquela roda de meninos afoitos e briguentos. Pra quê sair? Tinha tudo em casa, o que precisava e o que apreciava no momento: gibis da Turma da Mônica e suas bonecas intocáveis - estranha predileção por vê-las ali, em suas caixas, sem uso, resguardadas de qualquer coisa.
Nas reuniões de família, surpreendia a todos com suas idéias revolucionárias - uma tia chegou a dizer até que ela tinha "modos de Emília". No colégio, as professoras sorriam a cada resposta dada à tradicional pergunta:
-E você, Aline, o que quer ser quando crescer?
-Eu vou ser uma literata!
Os coleguinhas de sala se enciumavam com os elogios dispensados à menininha das tranças, com o tempo, as apostas das "tias" mostraram-se mais que certas, o oposto do que aconteceu com a consideração da mãe - "logo passa"- o tempo realmente passou, a menina cresceu e a cisma tornou-se hábito, da repetição para a prática: LITERATA.


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