quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Casca


O som estava ligado, eu me deixara ficar jogada na poltrona listrada, presente da madrinha que considero de extremo mau gosto, mas deixo lá, pelo menos serve. Afinal, é tanta coisa mais inútil que vou acumulando nessa vida. Escrevi um poema, ando até me divertindo com isso, não há talento aqui - a frase já é quase instintiva e se junta com a minha mania de bater a caneta no papel recém-rabiscado durante a leitura. Releio. Rio das minhas bobagens, incessante.
Dois dias em João Pessoa não me serviram para nada, nem cansaço eu sinto. Passa da meia noite, sei que se não dormir antes disso, já era. Talvez devesse tentar alguma coisa para mover esse tédio, afastar a frieza. Talvez, mas nem me mexo. Parece que, mesmo sem sono, um esgotamento me domina. Talvez seja o peso dos compromissos em quem precisa fazer artigo e dossiê literário essa semana. Quem precisa de férias, afinal? Não reclame, é o preço das escolhas, vai ser sempre assim - a consciência me cala, era a sua voz que ecoava em mim, vinda não sei de onde.
“Ninguém perderia tanto tempo pensando quando poderia estar dormindo.”
Quanto mais você quer se diferenciar dos outros, mais tende a comparar-se a eles. As armadilhas são muitas e seu engodo é proporcional à parte de orgulho que lhe cabe na mesa posta.
Por fim, você se vê cansado de filosofar, mas inteligente o suficiente para não se render às alienações da televisão. Termina jogado num sofá em pleno domingo, não distinguindo muito bem as coisas que ouve, mas mantendo a pose. Casca impassível.
Maldito telefone que não toca.

2 comentários:

A. D. disse...

inteligência não lhe falta, temos sorte. um aviso e sempre dá pra resolver quando o dia está assim.

Bjs

Rob Novak disse...

A casca é impassível talvez porque o tempo a endureceu. Geralmente é isso o que acontece.

E, realmente, o maldito telefone não é de tocar nessas horas.

Obrigado pela visita no meu blog e pelo ótimo comentário no poema. Gosto quando leem o que escrevo e tecem comentários bem elaborados :)

Abraços!