terça-feira, 5 de outubro de 2010

Para toda mulher do inferno, um homem sem jeito

Acordava cedo, tinha aula, tinha trabalho, tinha tanta coisa que ao fim do dia nem sabia dizer como tantas horas haviam sido gastas, perdia-me nas grandezas de tempo-espaço. Ele costumava deitar na hora que eu levantava. Sempre achei que dormia pouco, mas ele me superava, dormia bem menos, às vezes pensava que ele simplesmente havia abolido um bom sono de sua rotina.

Na verdade, preferia acreditar que dormir era o que ele fazia enquanto eu me ausentava e que os livros eram sua companhia preferencial. Conversávamos pouco nos últimos dias, eu andava muito ocupada, preocupada, aperreada e ele, arredio. Acordava às cinco da manhã, me arrastava até a cozinha e fazia o café quase de olhos fechados ainda, um café que não era bom, mas servia ao mesmo para despertar o ânimo que me fugia do corpo ainda não recuperado de tanta coisa. Costumava, contudo, chegar atrasada, não só nos lugares, mas na vida como um todo, isso parecia um karma e eu alimentava dúvidas quanto ao merecimento que tinha sobre aquilo tudo que estava a viver.

Em casa, nem parava mais para ouvir as reclamações do homem, para ele nada prestava, nada prestaria no céu, no inferno ou em qualquer coisa que escrevesse. Interessavam-lhe o placar dos jogos, o conhaque que nunca provei e alguns cigarros. Sexo de vez em quando, seus limites já haviam sido excedidos, testados, explicava. Os meus não. Não é que encarasse a vida com olhos de extrema paciência, tampouco ficava por filantropismo. Gostava, por mais que recebesse alguma má-criação ou acusação injusta de lhe encher o saco. Voltava, não alimentando um ciclo, mas por saber que, mesmo com todas as provocações e risos que o faziam comparar-me com uma hiena, poderia fazer a diferença em algo.

Poupava vocabulário, tempo e suposições não falando em "nós" - assunto perigoso, confiava que ele sempre soube, sempre sabe, lendo em minha transparência, sabe das vontades que tenho e tive esta tarde, de deixar de lado a pilha de pratos sujos da cozinha e buscá-lo para um chamego, deitada no sofá, cabeça no encosto e pernas esticadas sobre suas pernas, dando-lhe uma deixa para que me tocasse.

Cada uma teria o homem que merecesse, disse certa vez. Espero que sim. Que assim seja, pois para toda mulher do inferno sempre há de existir um homem sem jeito.

***

5 comentários:

Anônimo disse...

só posso dizer que tenho pena.

Mumu! disse...

As pessoas chegam até o limite que permitimos, se vao além a culpa eh nossa! Cada um tem oq merece! rsrrs

Daniella Morais disse...

Adorei o texto, muito perceptivo. Vi pedaço de minha vida nisso.

Benjamim disse...

Boa tarde Aline!
Quero agradecer-te pelo comentário e o elogio.
Desejo-te felicidades e que continues com este blog muito interessante.

Cumprimentos

Rob Novak disse...

Talvez há de se encontrar, pra uma mulher do inferno, um cara com jeito... Com jeito de encapetado pra faze-la companhia! :)

Conto interessante. Sempre é bom criar narrativas espelhadas, de alguma forma, no que vivemos. Mesmo que seja a partir de uma pequena fração de nossa história.

Obrigado pela visita e comentário em meu blog! Fique à vontade em voltar! Falta publicar a última parte das histórias de recenseador. Foi um trabalho muito interessante mesmo, e que, às vezes, dava uma preguiça de cumpri-lo, isso dava!

Abraços!