terça-feira, 2 de novembro de 2010

DO ALTO

Ela era mais uma entre tantas meninas. Tinha idade e aspirações que remetiam a uma mulher bem resolvida, mas no fundo se recusava a aceitar a gravidade da visão adulta.

Começou gostando de ler as narrativas, passado o susto inicial até se divertia. Não escrevia assim, mas apreciava a acidez e o despudor. Com as descobertas, passou a concentrar sua atenção noutro gesto: sentada aos seus pés, seria capaz de ficar ouvindo aquelas aventuras por horas, sem deixar de dar palpite aqui e ali. Era uma vida muito diferente, quanto mais ouvia mais tinha certeza de que não vivera nada ainda, ou quase nada, o grande mistério era haver um foco de interesse quando tudo apontava para uma natural dispersão. O que ela tinha de mais, ele tinha de menos.


- Queria ter menos juízo, acho que tudo seria mais fácil...
-E eu queria ter mais. Se pudesse roubava um pouco do teu.



A infantilidade dela trazia o ânimo que a vida pregressa havia furtado dele.
Uma noite não dormiu, tiveram uma longa conversa, produtiva, lírica, onírica e cheia de contrastes, eram como partes dissonantes de uma dialética na qual ambos não queriam chegar ao lugar-comum.
O que teria a oferecer a um amante? Isso ela não sabia, bem como uma infinidade de outras coisas nas quais nunca parou para pensar. Só queria continuar batendo à porta dele e aguardando sua abertura para dizer: "Tenho teorizado demais a vida, estou cansada. Me tira um pouco disso tudo?".
Quando vinha, ele não costumava ser sutil. Por natureza, imprevisível. Enquanto ela ouvia a seus pés, o tom era meio magistral, como se quisesse dar ao seu muito vivido valia de ensinamento. Falava da vida, dos achados artísticos, da sedução dos vinhos e da banalidade dos sentimentos. Era um excêntrico, louco como o anjo que renega seu lugar entre os eleitos para dedicar-se a um deleite profano.



-Cogitar "por quanto tempo" é perda de tempo, meu bem. Eu vou ficar em teus braços o tempo que for.



Respondia puxando-a para si, oferecendo seu colo para depois incitar-lhe o querer beijando a boca. Ela nada dizia. Não resistia nem deixava, se entregava - nisto há uma diferença sutil. Bolinava, dominava numa habilidade que era até cruel, subverter o convencional do amor em tesão é a mais justa das formas de driblar o ócio.
Curiosidade, fingimento ou como quisesse ele chamar, não fazia muita diferença. Tudo nela era sede.

4 comentários:

Anônimo disse...

nisso que se engana ou melhor, se é enganado, tem gente que sonha demais.

A. D. disse...

tu te superas, garota! deveria ter mandado pro concurso, muito bom mesmo esse conto. Bjs

Benedito João disse...

Muito bacana!

Não há muito o que teorizar sobre a vida, sobre o amor, é viver, é amar!

Ahhh ser jovem é tão bom, realmente "tudo é sede"! Isso define tanta coisa.....

Devia ter mandado pro concurso mesmo.... rs

Parabéns!

Rob Novak disse...

"subverter o convencional do amor em tesão é a mais justa das formas de driblar o ócio."
O convencional nunca há de aplacar a sede.

Ótimo conto!

Bjo