quarta-feira, 31 de março de 2010

Naufrágio



À Rosa Medeiros



Viver é excessivo e denso
E, por vezes, doloroso.
O amor é naufrágio dos olhos,
Denúncia de gestos e verborragia.
É o choro, o canto em desespero,
O conto do culpar-se
Por hoje não mais tê-lo.
É dilema o transbordo
Do quão sucinto é meu sucesso
No fracasso do enlace.

A promessa se apressa.
E o verso é a boca que chama a chama
Como virgem louca,
Condiciona e dá o ensejo
Aviltante deste acúmulo
Da porção maior de mim:
Meu lago.

sábado, 27 de março de 2010

Expiações II

É que nesse clima que paira sobre nós, de tudo que falamos, tudo que ouvimos e até do que dissimulamos nada parece ficar, mas nesse nosso nada já subsiste alguma coisa, tanta coisa! Queria só te dizer, meu bem, que a festa ontem estava boa, que as pessoas estavam animadas e as bebidas tentadoras, eu que não estava lá, estava aquém daquela agitação fugaz, permaneci na noite anterior, pensava ainda nas coisas de nós dois. Talvez nem me seja lícito falar em nós dois, mas nem sei de verdade qual que é, e se tento achar uma resposta, um definição plausível, uma dessas verdades de aceitação inquestionável, é ao nada que retorno. Inevitável, inevitável perda de tempo.
Condicionei-me a viver na fuga do enfrentamento de qualquer coisa que alterasse esse aparente equilíbrio, mesmo que o maior de todos os temporais devastasse tudo aqui dentro, sempre sobrevivi. O tanto que quero tua presença, o tanto que já estás feito presente em mim, é o quanto me move a bendizer o mundo por tua existência e maldizer os anjos por este meu desejo. Verto-me em dúvidas e me converto à devassidão - meus passos estão cada vez mais oscilantes.


domingo, 21 de março de 2010

Melhores.

Beijo apaixonado/Sonho Lilás


Nos gestos afetados, comedidos ou incertos,
Na respiração ofegante, no desalinho dos cabelos,
no emaranhado de sentimentos e artérias, o pulsar.
O beijo roubado, o mais esperado,
pode ser quente e apertado ou tímido, transfuso.
Apenas uma coisa é certa:
eu e você agora somos dois no mundo.


quinta-feira, 18 de março de 2010

Inexato

É como se tivesse um minuto apenas
e nesse minuto todas as coisas devessem ser acabadas.
Comprei alguns livros novos,
seria frustrante saber que não os lerei,
tenho também alguns desejos antigos
inconformada ficarei se não puder realizá-los.
Pego-me pensando nas coisas mais absurdas,
mais sedentas e mais lindas,
mais infinitas e mais difíceis
de se fazer realidade no banco da expressão.
Ninguém imagina como tem sido difícil calar-me,
não há representação ou poema que abarque isso tudo
em seu nada.

sábado, 13 de março de 2010

"Inside"

Cara, eu não sou de escrever sobre amor, sempre tive uma indiferença velada por certas demonstrações de sentimentos, reflito hoje se isto não seria mais um tipo de despeito, nós humanos somos fracos e mesquinhos ao considerar aquilo que não temos, talvez eu nem saiba o que é amor, mas também agora depois de algumas cervejas o melhor a fazer é evitar "puxar melancolia" assim, é noite de festa, os convidados já começaram a ir embora, mas o velho é anfitrião exemplar, é o mais animado de todos. O contraste com o austero homem com quem travei tantas discussões acaloradas me choca, melhor eu ficar calada, quando peguei a cerveja na mesa ele me lançou um daqueles olhares inquisidores, silenciar, não sei se é o mais justo a se fazer, mas ao menos parece o mais conveniente.

Queria escrever sobre ele, meus dedos parecem travar, sinto o coração apertado, há algo que me impede, não sei até que ponto isso me faria bem ou mal, preciso tomar algumas resoluções mas por enquanto me acovardo, adio as possíveis soluções, atos implicam em consequências. Estou incomodada, e o motivo não é o calçado que aperta meus dedos nem a toalha com estampa do Flamengo que repousa sobre minha cama, são as coisas a resolver, descobri que o meu caos não passa, mas permanece "em suspenso" até o momento propício mais próximo.

Há quem não ache honesto fugir, eu nem ponho isso em questão, fico meio assim, me sentindo uma caçadora de melancolias (que o velho Braga me perdoe a comparação), esse hipocondrísmo sentimental ainda me mata... ou me fortalece ainda mais, num rasgo de otimismo percebo que tenho sobrevivido até hoje. Minhas idéias estão péssimas, queria a certeza de me fazer inteligível, mas nem sei ao certo o que é isso que faço, meu corpo está cansado e meu homem inalcançável, a cerveja acabou e nem construí o céu que queria, muitas eram as coisas que eu queria, que eu quero, mas vejam só, meu bem tinha razão, minha vida também não é uma ficção, caso fosse, certamente não teria um enredo tão incoerente.

A sintaxe da vida é bem mais difícil, quiçá um dia eu consiga alcançar a organização e a linearidade que me fazem falta, mas por enquanto não o consigo, talvez na verdade não queira nada disso, já chutei os sapatos para longe, revisitei antigos pensamentos mas não vou fazer disso um ciclo, por enquanto levo como posso, aproveito "o que tem pra hoje", os amigos acabaram junto com a cerveja, vou para a cama sozinha e na prece silenciosa apego-me à fé que resta e espero sempre por dias melhores. Aquieta-me ver o apagar das luzes e as vozes que se distanciam, a festa finalmente acabou.

sábado, 6 de março de 2010

Aquém

Acho que vivia melhor minha vida
quando do mundo
nada sabia,
quando a
dor não provara ainda,
quando o
amor não me tocara,
quando de
ti nada conhecia.
Já sentia que o
esperava
para fazer por ti
meu eu, meu fim
meu
começo e meu meio
de todas as dúvidas e poesias.
A vontade é densa e
louca,
cessar-me-ei no desconhecido?
No gosto de outra
boca,
não a tua.
Imune
Encanto meu, quase
desprezo,
é para ti,
nada a fazer,
pois nem sei como me vês,
só sei que
eu te vejo.