segunda-feira, 28 de junho de 2010

Capítulo II


Deu a volta, contornou o mundo de suas vontades enquanto o trabalho me absorvia. Passaram-se alguns dias, eu tinha alguns sonhos a menos e noites a mais, algumas pessoas também tinham passado, só os desejos pareciam remeter sempre aos mesmos vícios. E eu sorri com ar de bobeira para dizer que queria ensiná-lo a dançar forró. Ele disse que não queria dançar forró. Eu sabia dançar, gostava de deixar meu corpo se embalar nos ritmos, nas toadas mais envolventes, quanto mais quente melhor. Em compensação, nem sempre sabia o que falar para ele.

Eu tinha uma expectativa de sei-lá-o-quê que se mesclava com o clima maroto com o qual ele costumava conduzir as nossas conversas. De vez em quando alfinetava-me com uma provocação, algumas vezes eu fingia não entender, noutras eu não entendia mesmo. Era sempre assim. Havia uma música no play, um bom gosto que me encantava, a melodia sensual transmitia uma singela mensagem: o álibi do amor são as tantas abstrações que apetecem a alma dos amantes.

terça-feira, 15 de junho de 2010

Ad Infinitum


Ontem eu achava que era preciso escrever algo, mas não senti vontade alguma.
Nunca acreditei em signos, exoterismo, sempre achei isso tudo uma bobajada só, quando não brincadeira de mau gosto.

Gosto - não são só as palavras que têm propriedades homônímicas: hoje posso dizer (sem remorso): gosto do teu gosto e até no desgosto há prova, teu sabor.

A coincidência bateu à minha porta e de início nem a reconheci, só mais tarde, bem mais tarde que a percebi, quando julguei chegado o desenlace. Nem é gula minha nem qualquer coisa que se justifique. O amor são dois, a felicidade é número par, mas a data é única. Estava rindo disso ontem, da mesma forma que ri da cigana que tomou minhas mãos hesitantes naquele fim de tarde no acampamento. Ela não entendeu minha risada, talvez esperasse pela silente tristeza de quem "sofreu no passado, sofre no presente e ainda sofrerá muito, até a chegada da estabilidade" - palavras da própria. Que karma seria esse que o destino me impôs? Não consigo ver nada que sustente uma relação, também não me interesso em buscar resposta para nada, já tive dias nos quais nada parecia interessante, nenhuma bebida, nenhuma leitura, nem mesmo o meu homem: nada se salvava.

Deixa, deixa estar. Importante é ainda me sentir viva e com todas as vontades e cismas que me fazem e que chegam até a me dar esse orgulho que carrego e demonstro, mas nunca confesso. Certas coisas nunca mudam. Pode ser que cresçam, adormeçam, mas é certo que permanecem, amaneiram-se, esperam só o propício. Quanto a você, ou vocês, sejam quantos e quais forem, meus amores, sabe o que eu digo, só o que eu digo? Ad infinitum.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Por um instante*

casal adolescente/web


Deslizei os olhos para o céu, era tudo muito azul naquele início de tarde. Voltei-os para baixo e sorri, enquanto você dormia eu podia apreciar suas faces que de tão brancas eram quase angelicais. O movimento na rua era cada vez maior, quase hora de começar a aula e os alunos passavam em grupos, alguns conhecidos sorriam e silenciavam com cumplicidade.

Essa árvore na esquina da rua do colégio sempre foi ponto de encontro, na calçada vermelha, como a gente chama, acontecem as melhores conversas, as maiores bagunças, desabafos, o chão é fértil. Os meninos gostam de colher as mangas quando em época, nem tanto pelo consumo, mas pelo desafio de ter que escalar a imponente planta e capturar os melhores frutos, isso foi você que me explicou, coisas de homem, acho que nunca entenderei!

De tanto conviver talvez fosse mesmo impossível não surgir alguma coisa maior. Em um dia brincamos, no outro você enrolou meus cachinhos, assim mesmo que você foi me conquistando, com poucas coisas, pois já deve ter percebido como de uma dia para o outro passei a ficar mais reservada quando você está presente. As meninas sempre incentivaram que eu fique mais perto, querem sempre fazer brincadeiras que me levem até você, elas me deixam envergonhada, sabem disso mas não param nunca!

Agora te vejo assim, dormindo em meu colo, parecendo tão feliz, só posso agradecer a essas loucuras, por terem conseguido vencer minha dureza, por nos deixarem mais cedo para momentos só nossos, até a hora da aula começar. Eu não vou dizer que te amo como vejo os outros repetindo tanto por aí, mas sabe, você me traz uma coisa boa mesmo sem entender por que sinto minhas mãos suadas quando estamos juntos. Aquela primeira vez que você me beijou sem eu esperar, eu fiquei sem saber o que fazer ou falar, só consegui olhar nos teus olhos por um instante que parecia o último, eterno. Não sou mais uma criança, mas também não sou uma mulher, estou longe disso quando só penso em fazer festa de 15 anos com valsa, cores e vestidos. Crianças assim não falam de amor, mas talvez sintam ou comecem algo assim, sei lá.

Só sei que quando finalmente o relógio marcar 13 horas será hora de te despertar e eu vou fazê-lo do mesmo jeito de sempre, assoprarei levemente sobre teu rosto (gosto de ver como essa brisa agita teus cabelos castanhos), depois te darei um dos meus beijos tímidos e aguardarei teu despertar para poder ver estes olhos que tanto me inspiram, pois sinto que tudo que faço em relação a ti é muito único e é com simpatia que recebo todas as suas perguntas, tentações e expectativas.





*Texto escrito em 26 de maio de 2004