quinta-feira, 29 de julho de 2010

Pausa para o café


Se sirva, meu bem.
Quero também que me sirvas
além de um banal amor confesso
e que te sirvas de mim
sorvendo em pequenos goles
ainda quente.
Então eu vou te roubar
tudo de mais preciso e pontual
teus ósculos e teu afeto
teus óculos e tua cerveja
entre uma ida e outra à cama
como num diálogo de todos os dias.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

60 ANOS DE FORRÓ - uma prosa sobre o "Seu Lua": forró, cultura e outras impressões.

Um texto que surge sem planejamento algum, apenas da minha vontade de trazer à cena uma data tão importante culturalmente, mas que não tem a atenção que merece.



Dia 20 de Julho de 1950, Luiz Gonzaga grava a música Forró do Mané Vito, uma entre as tantas composições que surgiram de sua parceria com Zé Dantas - compositor, poeta, folclorista e amigo do Rei do Baião. Com o lançamento deste disco, o Forró começou a se espalhar pelo Brasil, quebrando o estigma social que existia para com o ritmo, antes visto como ordinário devido ao seu apelo mais voltado para o popular.

Nessa hora, prefiro deixar de lado a narradora de fatos históricos para pôr em cena a Aline pessoa mesmo, uma vez que o que me move a escrever sobre esta data são as minhas vivências como nordestina, forrozeira assumida e filha de sanfoneiro.
Não posso falar com o conhecimento de causa de um especialista em música ou historiador, mas posso trazer em depoimento a admiração que adquiri pela figura do "Seu Lua", voz peculiar que povoa as lembranças de minha infância, ouvindo atentamente as incursões musicais de meu pai, desde o solo de sanfona mais autêntico até a irreverência talentosa do Raul Seixas, discos demais para minha infantil capacidade de contar. Tudo ele trazia em seu repertório, traz até hoje, justificando sempre que para ser bom em algo, você precisa primeiro conhecer as contribuições dos bons nessa área. Isso eu aprendi bem.

Só quando cresci que vim a conhecer a trajetória heróica do Gonzagão, mas desde a infância somos apresentados a ele, mesmo sem saber, Asa Branca, o dito hino do Nordeste, inevitavelmente vai figurar em algum momento da vida escolar da criança nordestina. Não sei no resto do Brasil, mas por aqui é assim. Quando adolescente, coisa de 15/16 anos, me liguei bem mais à cultura importada, elo não só de vontades, mas também de consumo, agradeço por ter sido apenas uma fase. Não me fecho para o novo, sou curiosa, ouço, leio, devoro mesmo o que as outras culturas têm de bom a oferecer, como numa "antropofagia" moderna, acho que só assim o homem pode enxergar mais além.

O que me causa não só admiração, mas também tristeza, é ver que do conhecimento da autêntica tradição que é o forró para o reconhecimento de sua importância, há ainda um abismo muito grande. As crianças conhecem, como eu disse, o contato é inevitável, mas talvez falte mais estímulo às novas gerações, ou talvez o mundo esteja tão de "pernas pro ar" que os interesses individuais se sobrepujem à valorização daquilo que constitui uma identidade nacional, regional, local ou simplesmente humana.

Enfim, não foi para falar de insatisfações que eu quis escrever, mas para trazer a lembrança do Seu Lua, homem determinado que, mesmo desacreditado pela maioria, conseguiu construir uma brilhante carreira nas terras do "sul", sem nunca tirar os pés do chão nem o coração de sua cidade Exu (PE). Até hoje me fascina ouvir minha mãe contar dos "bailes" que agitaram sua solteirice, do charme e da habilidade de meu pai nessas festas, ousado nos 60 baixos de sua Sonelli vermelha desde a mocidade. Dá uma vontade danada de viver em outros tempos, de sair dessa órbita por um momento, vestir aquela saia de chita e arrastar o pé nos salões de minha cidade natal, aquela na qual nasci, mas nunca vivi de verdade.



[Aline Patricia - 20/07/2010 - 03:30]






"Meu nome é Luiz Gonzaga, não sei se sou fraco ou forte, só sei que graças a Deus té pra nascê tive sorte, apôs nasci im Pernambuco, o famoso Leão do Norte.

Nas terras do novo Exu, da Fazenda Caiçara, im novecentos e doze, viu o mundo minha cara.

Dia de Santa Luzia, purisso é qui sô Luiz, no mês qui Cristo nasceu, purisso é que sô feliz."



(Luiz Gonzaga - 1912-1989)












...e um Feliz Dia do Forró! :)

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Façamos



Sentia agora a ilusão de que era a última mulher dele. Não tinha muita coisa a oferecer, ele também não tinha, acho que isso era algo que fechava o pacto silencioso de entrega que havia entre a gente. Uma história nada convencional, nossos caminhos jamais se deram à facilidade de seguir linearmente. Conhecidos de tempos já, continuava fugindo dele, desviando olhares, fingindo desentendimento de intenções e essas coisas - "eu nunca fui boba, não assim" - dizia agora enquanto descansava após o tesão consumado e consumido.

As coisas e as pessoas realmente exigem uma adaptação por parte da gente. E assim foi feito. Jamais vou perder a forma doce de olhar para ele, de sentí-lo, mas vamos pontuar uma coisa: eu posso ser aquilo que lhe é merecido (ou não), posso vir em sutis modos para ofertar meu carinho, minha acolhida e qualquer outro investimento de tom metafísico ou simplesmente fazer como agora, chegar cansada do trabalho, despir-me pela casa, deixando pelo caminho não só bolsa, sapatos e outras peças, mas também qualquer apego d'alma que porventura possa me desviar o foco. O que mais desejo, então, é que me espere na cama, ou melhor, quero que me encontre lá à sua espera e que não me dê oportunidade de fuga. Façamos.


sexta-feira, 2 de julho de 2010

Gabi.

Almofadas vermelhas compunham o visual alternativo da sala da casa dela. Naquele meio de tarde, assistíamos a um dos vários jogos da Copa do Mundo, coisa com a qual eu jamais perderia meu tempo se estivesse sozinha. Sentada no chão, ao seu lado, eu ria escandalosamente com seus comentários sobre a anatomia dos jogadores: detalhes, rosto, cabelos, pernas - nada ela perdoava.
Fim do primeiro tempo. Continuamos comendo pipoca, ela tomava cerveja, eu preferia meu bom e velho guaraná. Gabi era muito curiosa, sem dúvidas, incentivava-me a traçar também alguns comentários maliciosos.
-Eu gosto muito de homem, sem muita exigência de tipo, é mais aquela coisa de bater o olho em um moço e gostar, acontece muito comigo.
-Danadinha, você! (risos)
Ela falava sempre em tom mais sério, independente do assunto. Às vezes fazia verdadeiros discursos, agora me falava das escolhas de se viver sem restrições, das diferenças de toques, do diferencial da leveza e acendia-se em olhos luminosos.
Eu só olhava. Olhava o rosto anguloso, os cabelos castanhos que ela prendia acima da nuca por causa do calor, de vez em quando levava o dedo indicador à boca e o mordiscava, num gesto provocativo. Era mais magra que eu, tinha um corpo mais definido, fazia o estilo esportista e esbanjava vitalidade por aí - inúmeros eram os amigos que "pagavam pau" para ela. Precisava então afastar certos pensamentos maledicentes, me peguei julgando segundas intenções por trás das atitudes dela.
- E do que você gosta, Line?
-É como eu disse, Gabi, admiro certos atos dos homens que me ganham, mesmo que impensados. Gosto de olhos e de olhares masculinos reveladores, enfim, a atração vem desse tipo que emana o tom de comando. Sei lá, não sou dada a excessos de emotividade, muita leveza também cansa, entende?
-Entendi, Line, entendi.
Parecia aborrecida. Levantou, sem dizer mais nada, recolheu as latinhas vazias do chão e foi para a cozinha, deixando-me às voltas com a suposta maledicência.


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