quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Casca


O som estava ligado, eu me deixara ficar jogada na poltrona listrada, presente da madrinha que considero de extremo mau gosto, mas deixo lá, pelo menos serve. Afinal, é tanta coisa mais inútil que vou acumulando nessa vida. Escrevi um poema, ando até me divertindo com isso, não há talento aqui - a frase já é quase instintiva e se junta com a minha mania de bater a caneta no papel recém-rabiscado durante a leitura. Releio. Rio das minhas bobagens, incessante.
Dois dias em João Pessoa não me serviram para nada, nem cansaço eu sinto. Passa da meia noite, sei que se não dormir antes disso, já era. Talvez devesse tentar alguma coisa para mover esse tédio, afastar a frieza. Talvez, mas nem me mexo. Parece que, mesmo sem sono, um esgotamento me domina. Talvez seja o peso dos compromissos em quem precisa fazer artigo e dossiê literário essa semana. Quem precisa de férias, afinal? Não reclame, é o preço das escolhas, vai ser sempre assim - a consciência me cala, era a sua voz que ecoava em mim, vinda não sei de onde.
“Ninguém perderia tanto tempo pensando quando poderia estar dormindo.”
Quanto mais você quer se diferenciar dos outros, mais tende a comparar-se a eles. As armadilhas são muitas e seu engodo é proporcional à parte de orgulho que lhe cabe na mesa posta.
Por fim, você se vê cansado de filosofar, mas inteligente o suficiente para não se render às alienações da televisão. Termina jogado num sofá em pleno domingo, não distinguindo muito bem as coisas que ouve, mas mantendo a pose. Casca impassível.
Maldito telefone que não toca.

sábado, 25 de setembro de 2010

Esparsos

"Estou com você"
lhe repetiria todas as vezes
todas as noites
quando preciso
mesmo que não convencesse.
E eu estava com ele
muito mais ainda em sonhos
em vontades
e nos problemas alheios
que passam todo dia
e a gente nem vê
ou ignora.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Plagiada, quem diria.


Imagine a seguinte situação: você vive momentos de ternura e empolgação com uma pessoa - admiração, carinho e tesão incontestáveis - e, conhecendo o apreço do outro pela escrita, resolve dedicar-lhe um escrito, um conto, mais precisamente. No referido texto, expõe cada um dos seus desejos, dos seus sentimentos e de suas recordações, coisas íntimas, detalhes recuperáveis na cumplicidade dos dois. Concluída a escrita, mostrada a homenagem, contenta-se muito com a boa repercussão do seu trabalho, com os elogios e com a contribuição que a produção certamente dará à relação com o outro. Uma maravilha. Coisa de nem você, o próprio autor, deixar de admirar e se excitar a cada nova leitura, pelo tanto de si que colocou ali.
(...)
Passam-se alguns meses, quase um ano e, de repente, clicando em um link qualquer entre os infindáveis que lhe aparecem diariamente nessa loucura que é a vida "online", você chega a um blog destinado à publicação de contos eróticos, provavelmente de uma conhecida. Estranhamente, desde o início da leitura algo lhe soa familiar... Não precisa nem concluir para ter certeza de que aquele é o seu texto, com algumas alterações de nomes de personagens e espaço, mas as palavras, as expressões, os gestos descritos... está tudo ali!
-Eu me reconheceria em qualquer lugar!

Foi o que me aconteceu. Escrevo agora tomada por uma raiva sem precedentes. Não sei muito bem como proceder, mas deixei um comentário na postagem exigindo a retirada do conto. Nunca me preocupei com essas coisas, sempre tive consciência da abrangência de qualquer coisa postada na rede, mas, como disse em recado à "autora", se fosse outro texto eu até deixaria passar, mas esse não! Ele tem nome, sobrenome, inspiração e assinatura próprias, por isso não entendo, não concordo e não aceitarei tal apropriação.



Aline Patricia
23/09/2010

sábado, 18 de setembro de 2010

O homem que quero pra mim

(Com toda a utopia que a licença poética pode me permitir)



Não é o mais bonito, o mais simpático nem o mais correto, mas certamente me fará rir, ao mesmo tempo em que rirá da minha falta de jeito na cozinha e da minha incapacidade de esconder a ternura que sinto.

Não mudarei, por ele, minhas cores, meus hábitos ou meu tom. Não se escolhe de quem gostar, mas há a possibilidade de optar pela permanência (ou não). Estou completa como sou e se o quero não é para complemento. É, pois, escolha, afinidade, cisma, loucura (?)... cada um chama como quer.

Nas noites que considero tão frias, sei que ele se enlaçará em meu corpo, trazendo o calor que tanto aprecio. Deitados na rede, de lado, uma coberta por cima e um balanço suave serão suficientes para dar vida longa ao meu fetiche. Conhecerá meu gosto pelo beijo desapressado, pelo sexo na madrugada, ensaio do matinal que só aceito se for bem feito, se for de fazer perder as horas.

Por ele, não precisarei me preocupar em esconder as marcas das preocupações cotidianas ou dos excessos noturnos aos quais me permitirei em sua companhia, me verá bonita de cara limpa, entenderá até as imperfeições como detalhes tão meus... Fará de mim, então, uma perfeita sem-vergonha que se apresenta despida de roupas e inseguranças.

Por ser tão natural minha entrega, não me desgastarei em cobranças, saberá que estou com ele por opção e que as vivências de cama, mesa e banho me são suficientes. Intenso, nosso diálogo será de espírito, limitado que é em meu corpo. O abraço ao infinito virá da alma doce e selvagem que me incita, expressa no silêncio entrecortado por minhas súplicas mais profanas.

Quando partir para a minha leitura, verá que nunca escrevi nem escreverei visando convencê-lo de qualquer coisa. Recuso-me a pleitear qualquer conquista lexical, que as palavras se entendam com as palavras, que permaneçam assim como nossos livros na estante, despojados.

Desejarei que sua permanência em mim se faça plena, independente de tempo ou qualquer outro relativismo. Que meu amor seja, então, convertido em mil: mil vezes olhos, boca, mãos e sexo, num consumo incessante da sensualidade que faz aflorar em mim.


***

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Apurado da Vida


"Descobri que sou forte sim,
mas minha resistência se funda
no mesmo lugar em que se finda:
alma libertina que insiste em sonhar."