sábado, 23 de outubro de 2010

Aquário



Coitado do caranguejo,
ficou preso no aquário.
Coitado!
Mas não foi sempre assim,
antes
vivia solto.
Mas caranguejo anda de lado e vê o mundo
de outra forma.

Um dia encontrou o aquário.
A luz batendo no vidro
formava desenhos bonitos.
O caranguejo ficou fascinado,
achava tudo tão belo,
achava o aquário seguro.

Fez tanto esforço o bicho,
subiu como pôde e chegou lá no topo.
Coitado,
não vê que não há nada,
é só a luz refletida na caixa de vidro.


"Sai daí caranguejo, volta para a sua vidinha vazia."
- Que sai que nada...
e lá se vai o caranguejo para dentro do aquário.


Coitado do caranguejo, ficou preso de vez no aquário.


De
dentro é tão diferente,
a luz já não incide mais.
Não há nada,
só vazio
e o pobre do caranguejo a se arrastar pelo vidro.

O mundo passa lá fora.
Do aquário se pode ver tudo.
Mas já
não se pode fazer nada.

Caranguejo se você soubesse
como o aquário é solitário.
Deixou-se levar pela Luz,
agora é tarde,
já não dá mais para sair.
Coitado do caranguejo,
ficou preso no aquário.

Agora é morrer de fome.
Agora é morrer de
frio.
Agora é morrer sozinho.



(Walter Prozak*)




*Pseudônimo de um amigo, escritor entusiasta que me permitiu fazer algumas alterações em sua poesia, esse foi o resultado.

Sempre digo que não acredito em horóscopo ou qualquer tipo de previsão, entretanto, ao ler este poema, foi impossível não fazer a associação com algumas características do sentir de uma mulher canceriana, signo que tem como símbolo o caranguejo. :)

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Nota.

Escritor



Vários de meus textos são exercício de metalinguagem, gosto de escrever sobre a escrita: dificuldades, sentimentos e inspirações de quem se arrisca, amadoramente, por esse mundo.
As inquietações já não são as mesmas de quando comecei, as temáticas são variáveis e os pincéis utilizados para representar as coisas desse mundo também mudam constantemente.
As más companhias e os bons livros estão ao alcance de qualquer um, basta encontrá-los.
Quando criança, eu dizia querer ser uma "escritora famosa", hoje troco qualquer fama por uma boa sombra onde possa armar minha rede amarela e seguir com meus rabiscos.
Aprendi com o Jorge Cortás Sader Filho que escritora eu já sou, escritor é todo aquele que escreve, mas ter qualidade técnica e literariedade já são "outros 500"...
Estou correndo atrás.


quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Duas palavras, uma tentativa.


FOLHETIM

Trad. do fr. feuilleton, com alter. suf. (v. -im).]
S. m.
1. Seção literária de um periódico que ocupa, de ordinário, a parte inferior de uma página; gazetilha.
2. Fragmento de romance publicado em um jornal dia a dia, suscitando o interesse do leitor.
3. P. ext. Lus. Novela (3).



Encontrei tal definição no Dicionário Aurélio - Século XXI, quando procurava me assegurar de que a ideia que tivera na noite anterior não era tão absurda. O vivido sempre foi o tema de maior influência em minha produção escrita, juntamente com o sonhado e o desejado.

- Oscar Wilde dizia que "a vida imita a arte muito mais do que a arte imita a vida", não sei se concordo - conversava com um amigo na madrugada.
- Acho que é um ciclo. - respondeu-me, ponderadamente.
- Explica-me melhor, pedi.
- A vida imita arte após a arte ter imitado a vida. Over and over. Again and again.

Deu-me a prova dos nove, mesmo sem saber, afinal de contas, seguir o ciclo não é o que estou fazendo enquanto transcrevo para cá trechos de nossa conversa? Ou quando, antes de cogitar qualquer possibilidade de fazê-lo, joguei a frase do escritor irlandês na roda para uma discussão? Entendi que Vida e Arte se complementam, meu caro, não há sobreposição ou tentativa de separação, a arte não é só um resultado, é o trato do olhar humano sobre todas as coisas, sejam elas belas ou feias, tanto no ficcional quanto no biográfico - puxando pro meu lado, pra Literatura. O motor somos nós que alimentamos.


Dito isto, peço licença e me recolho à luta vã.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Para toda mulher do inferno, um homem sem jeito

Acordava cedo, tinha aula, tinha trabalho, tinha tanta coisa que ao fim do dia nem sabia dizer como tantas horas haviam sido gastas, perdia-me nas grandezas de tempo-espaço. Ele costumava deitar na hora que eu levantava. Sempre achei que dormia pouco, mas ele me superava, dormia bem menos, às vezes pensava que ele simplesmente havia abolido um bom sono de sua rotina.

Na verdade, preferia acreditar que dormir era o que ele fazia enquanto eu me ausentava e que os livros eram sua companhia preferencial. Conversávamos pouco nos últimos dias, eu andava muito ocupada, preocupada, aperreada e ele, arredio. Acordava às cinco da manhã, me arrastava até a cozinha e fazia o café quase de olhos fechados ainda, um café que não era bom, mas servia ao mesmo para despertar o ânimo que me fugia do corpo ainda não recuperado de tanta coisa. Costumava, contudo, chegar atrasada, não só nos lugares, mas na vida como um todo, isso parecia um karma e eu alimentava dúvidas quanto ao merecimento que tinha sobre aquilo tudo que estava a viver.

Em casa, nem parava mais para ouvir as reclamações do homem, para ele nada prestava, nada prestaria no céu, no inferno ou em qualquer coisa que escrevesse. Interessavam-lhe o placar dos jogos, o conhaque que nunca provei e alguns cigarros. Sexo de vez em quando, seus limites já haviam sido excedidos, testados, explicava. Os meus não. Não é que encarasse a vida com olhos de extrema paciência, tampouco ficava por filantropismo. Gostava, por mais que recebesse alguma má-criação ou acusação injusta de lhe encher o saco. Voltava, não alimentando um ciclo, mas por saber que, mesmo com todas as provocações e risos que o faziam comparar-me com uma hiena, poderia fazer a diferença em algo.

Poupava vocabulário, tempo e suposições não falando em "nós" - assunto perigoso, confiava que ele sempre soube, sempre sabe, lendo em minha transparência, sabe das vontades que tenho e tive esta tarde, de deixar de lado a pilha de pratos sujos da cozinha e buscá-lo para um chamego, deitada no sofá, cabeça no encosto e pernas esticadas sobre suas pernas, dando-lhe uma deixa para que me tocasse.

Cada uma teria o homem que merecesse, disse certa vez. Espero que sim. Que assim seja, pois para toda mulher do inferno sempre há de existir um homem sem jeito.

***

sábado, 2 de outubro de 2010

PEQUENA PROSA IDÍLICA

"Quem sou eu para falar de amor
Se de tanto me entregar nunca fui minha..."

(Chico Buarque - Tango de Nancy)


Se alguém fala em amar mais ou amar menos, na verdade deve incomodar-se por não amar. O amor não se presta à dubiedade da quantificação - ou você ama ou não ama. Nunca vi ninguém falar que ama pela metade, assim como nunca soube de um bem-querer que fosse condicional ou de um desejo que pudesse ser representado em porcentagens.

Sentimentos não exigem justificativas, não se dobram às vontades de seus donos (ou vítimas, diriam os pessimistas), não surgem nem morrem nos momentos oportunos - eles são.

Minhas palavras não têm a dureza de quem renega o afeto, mas há muito já se afastam da inocência dos que seguem ideais românticos. Cuida-te em nunca confundir permissão com permissividade, é o único conselho lúcido que esta teimosa aqui pode lhe dar, meu amigo, não há nada mais perigoso do que perder-se de si mesmo, o caminho é sem volta.

Tenho vontades que não escondo e tenho princípios que sigo mais por instinto do que por precaução, mas nem com tudo isso me arrisco numa definição.

- Sobre o amor, eu nada sei.

Respondi com certo desdém, gesticulando. Meus dedos afrouxaram-se, deixaram escapar qualquer abstração que seguiu ao encontro da fumaça que, liberta do seu cigarro, manchava o ar de um fim de noite quente - a única certeza que eu tinha era a de que nunca seria fácil.