sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Pra fechar nos 50.

Eu não ia escrever nada hoje, assim como também não escrevi no natal, ando meio sem criatividade e, principalmente, sem paciência pra esse blá blá blá de fim de ano e suas repetições nada originais.. Entrei aqui quase que involuntariamente, naquela coisa que todo dono tem, necessidade de sempre conferir se está tudo em ordem na casa, pois bem, olhei os comentários, os seguidores, as visitas e eis que reparei, não sem ficar bastante feliz, que a quantidade de postagens no blog praticamente duplicou em 2010, se compararmos com os números anteriores. Foi nesse ano que escrevi aqueles que considero meus melhores textos, em meio à uma montanha-russa sentimental consegui converter dúvidas, desejos e até lágrimas em tantas crônicas, contos e até poemas...
Estou satisfeita.
Só que sou cismada feito o diabo e, quando me atenho a um detalhe e essa coisa me pega, tenho que fazer algo, quieta é que eu não fico. Por isso dei uma pausa na batalha que está sendo me arrumar e estou postando agora: não conseguiria sair e deixar essa numeração 49 nas postagens, seria como se deixasse algo incompleto, sei lá, cada louco com a sua mania.


E Feliz 2011.

domingo, 12 de dezembro de 2010

Pensando num ano bom...


"A primeira coisa que faço quando chego em casa depois de um dia de trabalho é tirar os sapatos e resistir à vontade de me deitar na cama com roupa e tudo, atitude que minha mãe considera reprovável. Só que é isso que quero fazer agora, quero me permitir uma folga, quero fazer o que me dá vontade - quando entrar nesse tal de ano novo, vou tirar os sapatos e não mais me censurar. Me atirarei na cama e, como é de meu desejo, darei um pouco de descanso para a cabeça, menos responsabilidade para as costas e um espaço para a doçura que anda escondida aqui dentro. "

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

OLHOS NOS OLHOS - Para se ler ouvindo o Chico...


"(...)Tantas águas rolaram,
                                                                                                                                                              Quantos homens me amaram 
Bem mais e melhor que você."



Já estava na porta da loja, quando me dei conta. Dois passos curiosos e olhei em volta. Um moço organizava qualquer coisa, cumprimentei-o e perguntei.

- O "Martim" está?
-Está sim, quer falar com ele? Vou chamar.

Me olhou de cima a baixo rapidamente e sumiu por uma pequena entrada lateral. Esperei, em pé mesmo, olhando alguns anúncios e objetos decorativos do balcão, mas sem me atrever a tocar em nada, meu jeito desajeitado já havia proporcionado vergonhas demais. "Não toque em nada!" me autopoliciava como se faz com uma criança.
Surpreso, foi assim que recebeu minha presença ali, os mais de 500 km eram apenas um detalhe entre as tantas coisas que hoje nos distanciavam.

- Ah, você ainda está viva?
- Sim, estou bem viva.
- E o que faz por aqui, passeando?
-Não, vim participar de um evento, na UFC...
-Ah, sim, os seus congressos, tinha esquecido. Vamos sentar, conversar em pé não dá.

Apontou para um sofá preto no canto esquerdo. Sentamos e o lugar era muito melhor, mais ventilado.

- Quer alguma coisa? Café, água...
- Não, obrigada.
- Enfim, como estáo as coisas por Parnamirim? Tudo bem com a família?
- Está tudo bem sim, do mesmo jeito de sempre. E com a sua?
-Também na mesma. Veio sozinha?
-Não, com um pessoal do curso...
- Meu pai até hoje pergunta por você, imagine só!
- [risos] Eu adoro aquele velho! Diga que mandei um abraço e que talvez eu vá visitá-lo qualquer dia.
De vez em quando olhava para a porta e eu acompanhava seu olhar, até que não me contive:

- Esperando alguém? Se estiver, desculpe, não quero atrapalhar...
- Ninguém, coisas do trabalho. Muita coisa, agora é assim.

Uma das coisas que sempre nos distinguiu foi a ambição. Eu sempre tive sonhos, planos e projetos de crescimento, ele não. Minhas preocupações com futuro, boa formação profissional não o agradavam, eu queria o melhor, não só pra mim, e tentava fazer-me fortaleza e apoio, dizia que ele não deveria se resumir àquilo que a realidade imediata oferece, mas ir além. Lembro que ele respondia me fazendo qualquer carinho e me chamava de sonhadora.

- E aí, já está perto de casar?
- Eu? Claro que não, ainda tenho juízo! [risos] E você?
- Também não, agora sou um solitário.
- Ah, espero que logo apareça alguém.
- Espera mesmo?

Que perguntinha mais pretensiosa, pensei, talvez ache que ainda padeço com todo aquele passionalismo de tempos atrás. Ouvia cada palavra com atenção, adivinhava-as acintosas, maldosas, pareciam atravessadas por um certo rancor. Eu olhava para o passado e não entendia seus motivos, pois, no fim das contas, todas as atitudes que fizeram as coisas se desencaminharem foram tomadas por ele, disso não guardo nenhum remorso.

- Espero sim, acho que todo mundo precisa de alguém.
- E você já tem alguém?
-Não, mas nem estou apressada, um dia terei.

Ele sorriu, e a isso não consegui responder.
Quando entrei na loja, não sabia nem pra quê estava indo ali, mas desde quando me arrumara, parecia ter as coisas muito bem definidas, seja na frente do espelho, indecisa entre cabelo preso ou cabelo solto ou na escolha da vestimenta: jeans ou vestido? Fiquei com a segunda opção. Apesar de não estar acostumada a usá-los, sempre achei os vestidos bem mais femininos - leve, marcado na cintura e com um bom decote, não tão curto, mas também não tão longo, suficientemente revelador, que lhe saltasse aos olhos. Provocaria-o com uma aparição inesperada. Nada de saudade ou intenção de reconquista, mas um momento muito apreciado pelas mulheres: o de mostrar que está melhor, e muito, sem ele.

E então vi que era hora de me despedir, a conversava ultrapassava os limites da tensão que parecia estar sob controle no início e eu não queria que chegasse ao ponto de ser interrogada sobre novos amores, paixões ou coisas de que ele soubera ou lera. Não que acreditasse que ele ainda sentisse algo por mim, mas ele sabia ser desagradável quando quer, todo mundo sabe.

Ainda teria que sair com algumas colegas, justifiquei. Levantou-se e me acompanhou até a saída, sem nenhum contato mais direto.

-Cuide-se, quero receber boas notícias suas!
-Você também. E a formatura, quando vai ser?
-Em março.
-Vai ter mesmo festa?
-Vai sim...
-É uma data importante, se eu puder, apareço. Até lá aviso.
-Ok. Tchau!

Atravessei a rua quase correndo e segurando a barra do vestido que um vento safado insistia em agitar. Lá do outro lado eu o vi ainda na porta, acenei e sorri. Meu coração não disparou - estava livre, finalmente. Segui andando.