segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

TEXTO LITERÁRIO - Algumas pistas


Na atualidade, estamos expostos a inúmeros textos, querendo ou não, em todas as atividades cotidianas nos são solicitadas leituras, interpretações não só de palavras, mas também de gestos, posturas, imagens e diversas outras formas de expressão.

Falar de leitura, então, é uma tarefa que vem se mostrando bastante delicada, não só pela imensa quantidade de material disponível para os leitores, mas também pelos mitos que acabam sendo tomados como verdade e dominam o senso comum. Muito se fala em Literatura e muito se vende Literatura, mesmo que pesquisas apontem para a afirmação generalizante de que os brasileiros, em especial os jovens, não leem.

Antes de qualquer discussão ou julgamento acerca do valor literário de uma obra, faz-se necessário diferenciar o texto literário do não-literário, pois essa distinção nem sempre é muito clara ou consciente. A discussão é muito polêmica, mas podemos apresentar algumas das propriedades utilizadas para caracterizar, atualmente, o texto literário.

Não há nenhum critério temático que defina a literariedade de um texto, qualquer assunto pode ser abordado, a questão do conteúdo pode ser encarada mais como de preferência de época, pois em cada período histórico existem temas de maior interesse.

Outro fator que alguns consideram como distintivo é a ficcionalidade, mas a idéia de que apenas textos de ficção são literários não se sustenta devido à natureza verossímil da Literatura, pois esta trabalha com fatos que geralmente dizem algo ao leitor ou mostram acontecimentos que poderiam acontecer com qualquer pessoa, deixando sempre no ar uma dúvida sobre o que seria, então, verdade nas situações representadas.

Para entender o texto literário e fazer uma leitura proveitosa, é preciso entender que os conteúdos, assim como as palavras e a opinião apresentados nem sempre são novidade, o diferencial está no plano expressivo, ou seja, na forma como o autor trabalha as palavras, recria o mundo e dentro dele multiplica as possibilidades de visão, fazendo com que o mais importante na composição não seja o que ele diz, mas a forma como diz. É neste processo que entram os recursos de estilo, tais como ritmo, oposições, simetrias, repetições e diversos outros recursos que objetivam criar uma forma diferenciada de organização da expressão.

A intangibilidade é outro fator que constitui a natureza literária de um texto, uma vez que nenhuma obra pode ser resumida, comentada ou adaptada sem que perca sua essência. Isso demonstra a importância da leitura do texto original, pois um texto resumido perde o trabalho expressivo do autor e geralmente não possibilita a mesma interpretação do texto na íntegra.

Ainda no plano da expressividade, temos aquela velha diferença entre os sentidos conotativo e denotativo estudada nas aulas de língua portuguesa como essencial para qualquer leitura. O texto literário é conotativo, nele os sentidos das palavras e a forma como elas se relacionam umas com as outras são diferentes e por isso os escritores utilizam-se de muitas figuras de linguagem, como metáforas, antíteses e metonímias. Nestes casos, a visão denotativa, com sua interpretação fechada no sentido literal que se encontra no dicionário não possibilita a compreensão das subjetividades e do sentido paralelo presentes no texto.

Há, ainda, a desautomatização da linguagem, os textos literários buscam criar novas relações entre palavras e frases para que o sentido se estabeleça de combinações que retratem novas formas de ver o mundo. Os textos não-literários se caracterizam por sua função utilitária (informar, explicar, convencer, ordenar e etc.) e neles o sentido é um só, já nos textos literários as possibilidades de sentido são múltiplas e variam de leitura para leitura, de leitor para leitor.

Assim sendo, nos textos literários a preocupação maior é com a expressão, com a forma de dizer algo, o que pode ser visto a partir dos traços aqui apresentados: importância do plano de expressão, trabalho com a conotação, possibilidades diversas de sentido, intangibilidade da organização textual, entre outras coisas.

É importante ressaltar que a linguagem em função estética, o uso destes recursos não é feito apenas na Literatura, estes também ocorrem em trabalhos publicitários, brincadeiras infantis, jogos de palavras e outras atividades do cotidiano, pois o homem sempre se encantou com cadeias de sons e ritmos. É necessário destacar ainda que, se a Literatura é o local de uso privilegiado dos recursos estéticos apresentados, dentro dela, é na poesia que tais usos são mais amplamente explorados.

Concluindo: o que faz a diferença na leitura de uma produção literária é a forma como estes recursos são entendidos e interpretados pelo leitor, o trabalho do escritor é, portanto, construir um discurso sobre um tema que não é novo, com palavras que já existem, mas de uma forma particular e original que possibilite um novo olhar sobre os assuntos da vida.




Aline Patricia

Natal, maio de 2010.

3 comentários:

Jorge Sader Filho disse...

Em primeiro lugar, parabéns pelo novo aspecto do blog. Já havia visto, esqueci de dizer.
A literatura... Patricia, o texto esta um 'arraso' de bom! Convincente, meticuloso e profissional. Leitura para iniciados.

Beijos,
Jorge

Mais um Benedito. disse...

Que maduro!

Parabéns!

Acho que vc encontrou o caminho....

Ubiratan disse...

Aline

voce escreve muito bem tem muita beleza e talento na colocação das ideias.
Continue assim sempre , é raro encontrar tanta pensamentos sendo apresentados de forma tão clara por alguem tão jovem.

Abraço

Bira