segunda-feira, 14 de março de 2011

Belicismo*


Concreto mesmo é o comBATE
certo mesmo é o movimento


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que teima em se fazer real 
seja por tela, papel ou sussurro. 




*Poema-comentário ao "Poeminha.." da Regina Medeiros do blog "MotornaBarriga". 

quarta-feira, 9 de março de 2011

Banho-espelho, dia da mulher

Consegui abrir a porta de casa com muito esforço, mesmo gostando de estar sozinha, me chateava ver que não havia ninguém que me ajudasse com as sacolas de compras, foi muito difícil coordenar as ações, sou a pessoa mais desajeitada que já conheci. Levei tudo para a cozinha, separei tudo rapidamente, seguindo as instruções que minha mãe sempre dá nessas horas, depois de tanta repetição, seria impossível não ter ressoando mentalmente que "tudo tem seu lugar". Tudo tem seu lugar e certamente o da bolsa não é em cima do sofá, pensei. Voltei até a sala, peguei-a e fui deixar no quarto. 

Faz muito calor na minha terra, por esses meses, nem a chuva tem diminuído o desconforto térmico diário, nas ruas, as pessoas andam cada vez mais peladas, as vendas de óculos, água mineral e sorvetes aumentam, assim como acontece com qualquer outra coisa que prometa amenizar a quentura. Cheguei da rua fervendo, os cabelos soltos grudando na nuca, na pele, sensação desagradável, enquanto o espelho do guarda-roupas mostrava que meus braços, meu rosto e meu colo estão notadamente queimados. Sem paciência para arrumar as gavetas, acabei tirando o que procurava (lingerie) e fechando-as sem qualquer tentativa de organização, nem o vento que entrava pela grande janela naquele fim de tarde era capaz de conter o suor que queria escorrer pela minha testa e que me deixava mais inquieta do que a ausência dele. Lembrei que comentou algo sobre ir ao bar, não sei se demora, nem a volta me era dada como uma certeza, recordando da história do homem que diz que vai comprar cigarros que ele tanto cita, ri sozinha.

Gosto de me despir no quarto antes de partir para o banho, estando sozinha posso fazer isso.  Alcancei uma toalha, deixei uma música tocando no quarto, volume razoavelmente alto, e entrei no banheiro. A água já não chega tão fria ao chuveiro, aguardei alguns instantes, adiando o refresco mais desejado que tudo e, depois do primeiro contato, depois de deixar a água escorrer pelo meu corpo sem paradeiro, cruzei os braços num abraço a mim  mesma e me deixei ficar lá por um pouco tempo que pareceu muito. Curtia a aventura de me ensaboar, havia no toque um cuidado que é só meu, havia a surpresa das formas femininas que mostram para mim e para o mundo que há aqui uma mulher, convivendo lado-a-lado com a menina que provavelmente nunca deixarei de ser. Ao cabelo, vaidade adquirida nos últimos anos, dediquei também boa parcela de atenção, depois do ritual de xampu e condicionador, sempre conferia o quanto ele cresceu: esticava o corpo embaixo do chuveiro para sentí-lo se estendendo ao longo das costas.

O espelho no armário do banheiro, que não me incomoda mais como na adolescência, foi o próximo passo, encarei um rosto familiar e cabelos que caíam sobre o busto irregularmente. Sorri para mim mesma como se tivesse à frente uma velha conhecida, agora liberta do calor, mas não das expectativas. 

Toda olhos e sorriso, olhos cheios. - disse-me certa vez um jovem poeta. 
Cheios de quê? - perguntei, mas o maluco se resumiu a dizer que essa resposta só cabia a mim. 

Demorei alguns anos para aceitar que ele tinha razão, os olhos são conhecidos por revelarem muito da gente, no meu caso, quis a vida ser mais cruel, eles entregam, denunciam. Sou uma composição estranha nesses dias em que dissimular parece ser a palavra de ordem, não aprendi a ter meios-termos com aquilo que gosto ou desgosto, esconder o que sinto já foi algo que busquei, fadada ao insucesso. Além de tudo, falo demais, pergunto, questiono, opino e tenho um senso de proteção que beira o exagero. Consciência da minha força e dos meus limites e exageros eu tenho, agora só falta achar a tal resposta.

Cheios de quê? - repeti, retornando à superfície do espelho. 

Me sequei rapidamente, apreciando a toalha macia, envolvi-a no corpo, alvíssima. Passei um pente nos cabelos desalinhados e um perfume não tão forte, estava pronta para encontrar o velho safado na cama, enquanto o meu Bukowski não vem.