terça-feira, 17 de maio de 2011

Não-escrever

Palpitava na ponta dos dedos, como diria o Téo, mas as palavras vinham se atando umas às outras de uma forma que me deixava impotente, não conseguia ir além do ensaio mental. 

Minha mãe deve estar pensando que estou ficando louca. Quando me vê andando pela casa tão cedo, entende logo que não dormi, nem precisa bater à porta do meu quarto e constatar as olheiras que denunciam tamanha inquietude de espírito.  
O que acontece? Não sei. Fora o fato de eu não conseguir escrever nada que julgue aproveitável há meses, a vida segue normalmente em sua sucessão de equívocos. Talvez a imposição de ter que acordar cedo. Ou a tensão flagrante dos últimos e adoentados dias. Faço café para conseguir pensar melhor, minha cabeça pesa tanto com coisas aparentemente aleatórias que tenho medo de não conseguir suportar, organizar, tenho medo de perdê-las - medo de me perder.  

Deixo o copo de café na frente da tela branca do bloco de notas - suspiro - respiro como se o ar fosse me faltar no próximo minuto. Preciso escrever nem que seja para voltar o cursor a apagar tudo logo que chegar na última linha. E nem comecei direito ainda. Lembro da Adélia (Prado) dizendo  que às vezes acredita em parto sem dor, eu não acredito, não nestes casos.  

A fumaça do café quente começa a diminuir - uma bela armadilha - invisto num gole só e sinto o líquido quente agredir minha língua, impíedoso:  apesar de terem cessado os sinais, a quentura continua ali. Por quanto tempo mais eu não sei, mas sobrevive, mesmo sem dar mostras disso a quem só observa (e espera) o seu amainar.  

Sobre o não-escrever, só posso dizer que é algo que me incomoda, afetação visível. Como tentei definir outro dia numa alegoria torta, a sensação é a mesma de quando, em sonhos, me vejo em apuros e sei que preciso gritar: abro a boca, forço uma vocalização, mas me descubro sem voz. Parece um pesadelo. Ainda bem que não demoro a acordar. 


***