quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Rio do Fogo - Redação e Memória


Praia de Rio do Fogo/RN

Quando criança, eu dizia que queria ser escritora, tinha a resposta na ponta da língua para as professoras e para todos os outros adultos que perguntavam o que eu queria ser quando crescesse. Não falava como se fala de um sonho, de uma possibilidade muito remota ou de uma questão de sorte - era por vontade, admiração pela palavra e por todos os seus poderes que, na época, eu considerava como uma mágica, a mágica das palavras, das combinações e das incontáveis formas de se dizer algo ao mundo. Eu não sabia definir tão bem tantas expectativas, mas sentia. Não pensava em ficar rica, ganhar muito dinheiro ou fama escrevendo, o que me encantava era essa possibilidade de transmissão, quem me conhece sabe que adoro contar histórias, narrativas nas quais eu sempre acabo sendo a personagem principal, mas onde um tanto enorme da minha vida e das minhas relações sociais/profissionais e até amorosas também é evidenciado. Queria, então, ser uma mensageira, levar risos, boas-novas, lágrimas ou reflexões ao mundo, e quanto mais gente me ouvisse (lesse), mais realizada eu seria! 
E cresci convicta de que esta seria a minha profissão. Na escola, minhas redações se destacavam não só por extensão, mas principalmente pelo bom desempenho discursivo, não que fosse algum prodígio, mas a diferença entre mim e as outras crianças era só uma: a prática. Eu treinava, enchia páginas e páginas com historinhas bobas, personagens de nomes estranhos e situações cotidianas que eu gostaria que acontecessem de verdade. 
Lembro de uma vez em que a professora solicitou que falássemos sobre as nossas férias. As minhas, como sempre, haviam sido muito chatas, paradas, não tinha feito nada de excepcional e isso não me agradava. Resolvi contar minhas férias do jeito que gostaria que tivessem sido, ou melhor, do jeito que se espera que se apresentem as narrativas escolares que falam sobre esse tema. Para tanto, escalei uma figura familiar com quem jamais havíamos tido contato, mas que sempre aparecia nas recordações juvenis da minha mãe: o tio bem sucedido, que morava na capital, cidade vizinha, mas que nunca aparecia para nos visitar. Ele tinha uma casa de praia enorme na cidade de Rio do Fogo, no litoral norte do RN, espaço que minha mãe sempre citava nas recordações de sua mocidade. Estava feito, eu tinha um local e um motivo para estar nele, visita familiar, tom de aventura, praia, sol, parentes desconhecidos... Contei tudinho, alimentando a história com as referências maternais tantas vezes repetidas e ficcionalizando momentos, floreando emoções e o sentimento de novidade que certamente eu experimentaria na visita. 
Tirei nota máxima e ganhei uma anotação no canto da folha, um elogio ao meu relato, trabalhado em tantos detalhes. Fiquei felicíssima com aquilo tudo, mas guardei o texto muito bem guardado, alguns colegas até pediram para lê-lo depois que a professora comentou durante a aula daquele dia, mas eu não deixei, o instinto de autopreservação que carrego até hoje já existia. 
Algumas pessoas com as quais dividi esta passagem da minha vida hoje, 13 anos depois, comentaram com certo sarcasmo, ensaiando uma censura ao meu devaneio infantil. Não vivemos na obrigação de que a vida imite a arte, acho que não deve haver reprovação alguma ao movimento contrário, muito menos se a imitação (ou recriação) da vida estiver na arte de uma criança de 09 anos. Mas o fato é que a compreensão parece estar em falta nos dias de hoje, não se percebe além do que se vê à primeira vista e, ainda assim, se julga. 
Nisso, chego à segunda parte do meu memorial. A redação foi bem aceita na escola, elogiada e guardada por mim junto com outras tarefas e trabalhos, mas sempre há um depois. Desde pequenos, meus irmãos sempre gostaram de mexer nas minhas coisas, ler cartas e rascunhos, investigar cartões e presentes, nunca perderam tal hábito e eu espero que leiam também este, assim saberão o quanto condeno tamanha curiosidade. Quando até eu mesma já havia esquecido, descobriram a minha narrativa de férias e eis que teve início o meu inferno. Comentaram entre si, mas não ficaram satisfeitos com tão pouco: minha irmã fez questão de expor para a família o quanto eu era 'mentirosa', numa leitura alta entrecortada por risadas e deboches que não pude evitar. Me senti humilhada, censurada, mas, pior do que o choro e a raiva que me fizeram rasgar aquele papel em vários pedaços mínimos, foi ter sentido vergonha de uma coisa que até então me era motivo de muito orgulho - eu tinha descoberto, naquela atividade, que era possível reinventar o meu mundo escrevendo e que a prosa verossimilhante era o terreno por onde eu poderia seguir sem sustos. 
Passou-se um bom tempo até que eu voltasse a escrever, mas mesmo assim o fazia de forma quase secreta, escondida, a repressão foi tamanha que só depois de alguns anos percebi que não me cabia sentimento de culpa algum. Falar em censura ou qualquer outro tipo de castramento intelectual é algo bastante complexo, são inúmeros os pontos que se deve considerar, mas, no meu caso, só vejo uma coisa primordial, uma única coisa que fez com que eu me arrastasse por tantas linhas e recordações: a consciência de que os censores estão por toda a parte e, se estou historiando isso hoje, é porque venho superando todos eles.



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